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Relatório 48: o fim do mundo e uma boa notícia

15 abril 2011 2.020 visualizações 4 comentários

Deixamos o Sistema Solar para trás, depois a Via-Láctea e avançamos até a nossa galáxia, à qual os terráqueos dão o pomposo nome de Pequena Nuvem de Magalhães, e nós, simplesmente, de Casa.

A distância até Tralfamador é de apenas 200 anos-luz, mas levamos quinze minutos para chegar até lá. É que dirigi devagar. Nem engatei a quarta marcha.

“Por que você veio tão lentamente, Kubno?”, perguntou-me a tenente.

“Para ficar mais alguns minutos ao seu lado, Velvinha.”

Ao ouvir aquilo, suas garras ficaram crispadas e ela disse entre dentes: “Pela última vez, não me chame de Velvinha.”

Enfiei os rabos entre as pernas e tratei de fechar as bocas.

Após deixar a Vork no espacionamento da Copula (COnfederação Planetária Unida de Lealdade Ambiental), fomos levados até a sala de reuniões do Conselho Máximo.

Logo estávamos diante da cadeira monumental do imperador Kingolus. Ela tinha mais de trinta metros de altura e tivemos que ficar olhando para cima (imagine como é ter torcicolo em trinta pescoços).

“Tenente Velva e cabo Kubno, depois de toda esta pesquisa chegou a hora de expor suas opiniões sobre o terceiro planeta do Sistema Solar”, ordenou o imperador, segurando um globo terrestre.

Então Velva começou a falar o óbvio: a Terra era um belo planeta, possuía uma natureza exuberante e mereceria ser preservada. O problema é que algo atrapalhava seu equilíbrio: uma de suas criaturas, o homem. Ele aniquilava a vegetação, empestava o ar com monóxido de carbono, brincava com elementos químicos, matava outros seres e arruinava ecossistemas apenas para ter conforto.

E pior: pensava que era superior à própria natureza.

O presidente Kingolus ouviu o discurso atentamente, até que, balançando as antenas que saíam de sua coroa, disse:

“Pelo que entendi, o planeta é bom, mas o homo sapiens, nem tanto. Ora, trata- se de um caso simples: basta acabar com a humanidade. Passemos ao procedimento de execução.”

Eu e Velva nos afastamos. Então um criado flutuou até o imperador levando uma almofada sobre a qual havia uma luva branca.

O presidente Kingolus a vestiu em uma de suas mãos, a que tinha treze dedos, e se preparou para apertar o botão. Foi quando gritei:

“Pare!”

“O quê?”, disse Kingolus. “Você ousa me interromper?”

Cruzei meus tentáculos atrás do corpo, abaixei minhas cabeças e sussurrei: “Perdão, presidente, mas o senhor está agindo como um homo sapiens.”

“O quê!?”, ele exclamou e perguntou.

“É isso mesmo”, completou a tenente Velva. “Se o senhor executar a humanidade estará sendo exatamente como um terráqueo autoritário e prepotente, colocando-se acima da própria natureza.”

“Não tinha pensado sob este ângulo…”, disse Kingolus meio sem jeito. “Eu só queria proteger o planeta…”

“Se os homens tiverem que ser destruídos, eles mesmos se encarregarão disso”, falei baixinho.

“E, por outro lado, há alguma esperança. Vimos bons exemplos de consciência e ação em nossa viagem, e, apesar de eles ainda serem poucos, acreditamos que uma mudança de rota possa acontecer”, emendou Velva.

O imperador pensou por algum tempo. Depois, desceu até nós e disse:

“Suas sábias palavras abriram meu olhos, cabo Kubno e tenente Velva, adiarei minha decisão.”

“Eba!”, dissemos eu e Velva ao mesmo tempo.

“Por outro lado, vocês quebraram o protocolo e me xingaram de autoritário, prepotente e, o que é pior, de homo sapiens. Por conta disso, terei que puni-los.”

“Glup”, fizemos eu e Velva ao mesmo tempo.

“Condeno os dois a uma reclusão de cem anos neste tal planeta Terra. E vocês vão ficar aqui”, disse ele girando o globo e colocando o tentáculo num ponto qualquer.

Tivemos sorte. O tentáculo imperial caiu bem em cima de uma ilhota deserta no Oceano Pacífico. E o primeiro diálogo que tive com a tenente em nossa paradisíaca prisão foi assim:

“Desculpe… Eu não devia ter quebrado o protocolo. Agora a senhora está presa aqui comigo.”

“Na verdade, você foi muito corajoso, Kubno. Poucos teriam se oposto a uma ordem do imperador.”

“Acha mesmo, tenente Velva?”

“Tenente Velva? Ora, pode me chamar de Velvinha.”

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4 comentários »

  • Jr said:

    Muito bom, só não diga que acabou?!
    =D

  • Wellington said:

    Quando vai sair o relatório 49? Estou ansioso…

  • Marcelo said:

    Parabéns!
    Gostei do que li e as informações que aqui foram dadas tiveram ecos em minhas conversas… e toda história que acaba a gente quer mais….
    Escreva mais um ou dois relatórios….
    A toda a equipe do site meus parabéns…..

  • Wellington said:

    Não teremos mais história? Realmente acabou?

    Abraço

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