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Relatório 47: antropocentrismo ou baratocentrismo?

14 abril 2011 1.551 visualizações Sem comentários

Estávamos fazendo as malas e preparando as coisas para o nosso retorno a Tralfamador. O mais difícil era transformar o relatório numa coisa positiva. Ou seja: em poucos dias, bum!, os humanos iriam pelos ares.

“Daqui a pouco estaremos falando com nossos superiores, Kubno. Tenho quase certeza de que o presidente Kingolus vai recomendar a pena capital.”

“Pois é… O chato é que eu acabei me afeiçoando a essa gente.”

“Sim, os humanos são capazes de obras admiráveis. Veja as pirâmides, os quadros de Van Gogh, a Ópera de Sidney, o Taj Mahal, as peças de Shakespeare, a Muralha da China…”

“A música de Gilson de Souza!”

“Tudo vai virar pó.”

“Oba! A raça humana vai ser destruída!”, falou alguém com uma voz estridente às nossas costas.

Abrimos os olhos da nuca e vimos que quem nos dirigia a palavra era uma “Socorro!”, disse Velva pulando nos meus tentáculos. Aquilo foi um enorme prazer, mas tive que fazer um bocado de força para segurar suas quatro toneladas (Velva está uns trezentos quilinhos acima do peso).

A barata fez ares de enfado e disse: “Bah, não importa de que planeta venham, as fêmeas são todas iguais: morrem de medo de nós.”

“Vocês são o bicho mais horrível do universo”, disse Velva, infelizmente descendo do meu colo.

“Vocês também não são muito bonitos”, disse a barata, que era um exemplar macho Periplaneta americana. “Vamos às apresentações: Meu nome é Gregor. Gregor Samsa. Foi uma piada sem graça de minha mãe.”

“Muito prazer, Kubno.”

“Argh”, disse Velva.

“Gostei dessa história de fim da humanidade. Só não entendi por que vocês estão tristes”, falou Gregor.

“Uma criatura capaz de fazer coisas tão belas não deveria desaparecer”, a tenente respondeu.

“Ora, não me venham com essa antropolatria.”

“Que é isso?”, perguntei.

“É essa mania dos humanos de se acharem o centro do universo, a obra-prima da evolução.”

“Mas eles realmente fazem coisas interessantes”, Velva rebateu.

“ETs emocionalmente envolvidos não veem as coisas com objetividade. Bach não passa de ruído para uma mosca e uma coruja pode viver perfeitamente sem jamais ter lido Machado de Assis.”

“Se bem entendo seu raciocínio”, Velva emendou, “você pensa que a vida é algo que transcende o ser humano?”

“Protágoras de Abdera disse: ‘o homem é a medida de todas coisas’. Não é uma grande pretensão? Aposto que, se ele fosse uma pulga, diria: ‘a pulga é a medida de todas as coisas’. Ora, nenhum ser é a medida de nada. Os dinossauros dominaram o planeta por 140 milhões de anos e hoje só existem nos filmes.”

“Que são feitos pelos homens”, rebati.

“E que não são vistos pelos os outros animais”, disse a barata desviando-se de minha chinelada verbal.

“Então você acha que a humanidade deveria acabar?”

“Seria bom para o planeta”, Gregor respondeu. “Principalmente para a baratanidade. Nós somos o futuro do planeta, fofinha.”

Foi a última frase de Gregor. No instante seguinte ele estava sob uma das patas de Velva. Não se deve chamar uma fêmea de fofinha. Ainda mais se ela pesar quatro toneladas.

Depois de lavar a pata com ácido, Velva entrou na Vork e ordenou:

“Ligue os motores, Kubno. É hora de ir para casa.”

Flutuamos alguns minutos sobre São Paulo, depois subimos até o ponto de não

mais enxergar seus prédios, cruzamos a estratosfera e logo a Terra era apenas um ponto azul. Eu e Velva demos um suspiro de tristeza. Já estávamos com saudade daquele belo lugar e de seus humanos malucos, que logo seriam transformados em pó.

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