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Relatório 46: morte não dá futuro

13 abril 2011 1.545 visualizações Sem comentários

Estávamos voando sobre São Paulo quando, de repente, o painel começou a piscar. Era uma mensagem de Tralfamador:

“Soldados, o prazo de sua missão está acabando. Já chegaram a uma conclusão sobre se devemos aceitar a Terra na Confederação Planetária Unida de Lealdade Ambiental ou apenas destruí-la? Trabalhem rápido! Daqui a uma semana vocês darão seu depoimento à COPULA.”

“Caramba, Kubno, o que faremos?”

Era uma boa pergunta. Mas eu não tinha uma boa resposta. Desde que chegamos à Terra falamos com dezenas de pessoas e animais, visitamos diferentes épocas da história, processamos dados, fomos presos, depusemos um presidente e até matamos o supervisor Jopgus. Por tudo o que vimos, nós sabíamos de uma coisa: a Terra não merecia fazer farte da Cópula. E isso nos deixava preocupados, porque acabamos simpatizando com os terráqueos. Em geral são animais pouco inteligentes e egoístas, mas um ou outro é bem interessante.

Bem naquele momento pairávamos sobre um cemitério e, como a tenente ainda queria entender como a morte influenciava a atitude dos humanos em relação ao ambiente, resolvemos descer.

Tomamos a forma de agentes funerários e nos teleportamos para o alto de uma tumba. Ali, Velva me expôs seu raciocínio inicial: “Em geral as religiões afirmam que há uma vida após a morte, o que define a relação dos seres humanos com o planeta.”

“Estou entendendo…”, menti.

“E há dois tipos de crenças”, ela continuou, “as que acreditam em ressurreição e as que crêem na reencarnação. As primeiras acham que viverão num paraíso celeste, portanto a Terra é apenas um lugar de passagem. Já os segundos pensam que poderão consertar as coisas nas próximas vindas. Entende o que isso quer dizer?”

“Claro que entendo! Mas quero ouvir sua conclusão antes, senão você pode se influenciar com a minha.”

“Muito gentil de sua parte”, disse ela com um ar irônico. “Bom, isso quer dizer que a morte, ao contrário do que se poderia pensar, em vez de meter medo nos humanos quanto ao futuro do planeta, gera indiferença.”

“Exatamente o que eu tinha pensando.”

“Mas eu queria checar esta tese com algum especialista.”

“Vai ser difícil falar com um morto.”

“Mas podemos entrevistar um especialista em morte, como aquele coveiro”, disse Velva apontando para um homem que acabava de tapar um buraco com sua pá.

Andamos até ele e Velva tomou a palavra:

“Perdão, mas eu gostaria de fazer-lhe uma pergunta.”

“Sim?”

“Para o senhor, qual deveria ser a relação entre a morte e o meio ambiente?”

O coveiro, que já tinha uma idade um tanto avançada, respirou fundo e disse:

“Nós vamos morrer. Pode parecer uma frase óbvia, mas a maior parte das pessoas não leva isso em conta. Nós somos o único animal que é mortal. Todos os outros animais são imortais. É claro que toda forma de vida perece, mas nós somos a única que sabe que vai morrer. Por isso o gato foi dormir tranqüilo ontem e o cão dorme sossegado agora. Eles não têm essa questão. Mas nós somos um animal que, além de morrer, sabe que vai morrer. Só que a questão não é a morte, mas o que eu faço da minha vida até que ela aconteça.”

“Interessante…”, eu e Velva dissemos ao mesmo tempo.

“Se os senhores querem um exemplo, eu citaria o José Lutzenberger.”

“O que houve de especial com ele?”

“José Lutzenberger denunciou o uso abusivo de agrotóxicos por parte de grandes empresas, militou nas primeiras organizações ambientais do Brasil, como a Agapan, lutou pelos direitos dos índios, dos animais e pelo uso de recursos renováveis, sem destruir as fontes de vida do planeta.”

“Uma vida exemplar!”, comentou Velva.

“Até na morte”, disse o coveiro, “pois para que sua morte tivesse o mínimo impacto ambiental, ele fez questão de ser enterrado nu, envolto num lençol de linho e ao lado de uma árvore. Um toque de poesia.”

“Poesia não vai resolver o nosso problema.”

“Poesia nunca resolve nada, mas emociona e faz pensar.”

Fizemos um momento de silêncio e depois voltamos para a nossa nave. Tínhamos que decidir o futuro dos terráqueos.

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