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Relatório 45: mortes, maldições, horror

12 abril 2011 1.433 visualizações Sem comentários

Conhecer passagens ecológicas da Bíblia passou a ser o objetivo de Velva e, para isso, ela propôs mais uma viagem no tempo.

“Por que não pesquisamos na Internet como todo mundo?”, perguntei.

“Porque é frio e sem graça, além de pouco confiável. Tem muita mentira na internet. Prefiro ouvir o texto da voz de um fiel da igreja primitiva.”

Nossos destinos no tempo e no espaço foram o ano 207 d.C. e a cidade de Cartago. Iríamos conhecer Quintus Septimius Florens Tertullianus.

“Tertuliano foi um apologista da fé e o primeiro autor cristão a publicar uma obra literária.”

“Religiosa?”

“Não, de técnicas de caratê. Francamente, Kubno, você às vezes me irrita com essas perguntas.”

Dessa vez caprichamos na pesquisa de figurino e nos apresentamos como um casal de romanos. Ser o marido de Velva depois de todo esse tempo foi algo que me deixou excitado. Como os homens deviam se manifestar, e não as mulheres, fui logo começando a falar.

“Admirável Tertuliano, eu e minha mulher gostaríamos de ouvir algumas passagens dos textos da sua religião.”

“Podem escolher, neófitos. Conheço o livro sagrado do Gênesis ao Apocalipse e posso citar longos trechos de cor.”

“Velva, minha esposa e mulher, tem apreço pelas coisas da natureza, logo gostaria que nos falasse sobre esse tema.”

“Será um prazer.”

Tertuliano nos levou a um cômodo onde havia rolos de livros santos e até alguns apócrifos, como o Evangelho de Barrabás. Ele apanhou um dos livros e o pôs sobre uma mesa. Depois de desenrolá-lo, começou a lê-lo.

O primeiro trecho que escolheu foi o do Dilúvio, quando uma chuva que durou quarenta dias e quarenta noites extinguiu toda vida na Terra, exceto um tal Noé, sua família e casais de outros animais.

“Não é um lindo exemplo de purificação?”, perguntou Tertuliano.

“Discordo”, protestou minha mulher, digo, a tenente Velva. “Não era preciso matar os outros animais, que não fizeram nada, e muito menos as árvores, as plantas e todas as formas orgânicas de vida.”

“Cale-se!”, gritei, e Velva, muito a contragosto, se curvou pedindo perdão por sua insolência. “Desculpe-me, sábio Tertuliano, castigarei minha mulher, esposa e escrava quando chegarmos em casa. Por favor, continue.”

Ele leu, em seguida, um trecho que falava sobre as pragas do Egito, quando, por ordem divina, rios se transformaram em sangue, doenças atacaram os animais, plantações foram destruídas, trevas cobriram a Terra e uma saraivada de fogo consumiu tudo que vivia.

“Que poderosa demonstração do poder celeste!”

Velva já ia dizer alguma coisa, provavelmente que na Bíblia a natureza é colocada como inimiga do homem, como mero joguete de um deus vingativo, mas dei um preventivo beliscão em sua bunda. Adorei aquilo. Ela, nem tanto.

Tertuliano leu mais algumas passagens, porém, elas tampouco pareciam encorajadoras em relação à ecologia: animais como a coruja foram declarados impuros; bois, carneiros e pombas foram sacrificados em holocausto; uma figueira foi amaldiçoada e demônios foram implantados em inocentes porcos, que enlouqueceram e cometeram suicido se atirando de um precipício.

“Obrigado, notável Tertuliano, eu e minha mulher e humilde servidora Velva voltaremos mais tarde para ouvir novas leituras da sua encantadora voz.”

Não voltamos, claro.

Velva ficou indignada com os trechos lidos pelo sábio. Disse que eles mostram que o homem se considera algo abaixo de Deus e acima da natureza, um ser um pouco abaixo dos anjos mas muito superior aos outros animais.

“Por que não desistimos desse tema?”, sugeri.

“Porque acabei de ter uma ideia.”

“Ai, ai, ai…”

“A fé lida com os mistérios do além-túmulo, não lida? Ora, por que alguém vai cuidar do planeta se sabe que vai morrer?”

“Você espera uma resposta?”

“Não.”

“Para onde vamos, então?”

“Para um cemitério.”

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