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Relatório 44: A igreja de garrafas

8 abril 2011 1.452 visualizações Sem comentários

Assim que pousamos em Tubarão, Santa Catarina, eu e a tenente Velva nos transformamos em duas abelhas. Nosso objetivo não era procurar mel, mas sim uma igreja ecológica. Não foi fácil achá-la.

Para onde quer que voássemos, só encontrávamos construções tradicionais de alvenaria. Algumas eram até bonitas do ponto de vista da arquitetura humana, mas nada parecia inspirador.

Já estávamos desanimando quando vimos uma mulher apanhar uma garrafa de refrigerante do chão. Parecia uma cena ordinária, mas então ela se ajoelhou, abriu os braços e bradou, emocionada:

“Graças te dou, oh, Jesus, porque encontrei mais um tijolo para a obra do pastor Jeremias!”

Bem, não é o tipo de coisa que se ouve toda hora. Nós a seguimos por um tempo e, bingo!, chegamos à igreja Amigos de Jesus. De fato havia algo de diferente ali: seu teto e suas paredes eram, na verdade, um amontoado de dez mil garrafas pet.

Resolvemos que era hora de reunir dados e nos transformamos de novo: eu assumi a forma de um padre, e Velva a de uma freira – só depois descobrimos que aquelas eram vestimentas típicas de católicos. Felizmente o pastor Jeremias não se importou com nossa gafe.

“Bom dia, reverendo”, disse Velva. “Gostaria de saber um pouco mais a respeito desta sua igreja tão particular.”

“Bem, colegas, na verdade o motivo da inovação é simples. Nós precisávamos de um lugar maior para realizar nossos cultos, mas não tínhamos como pagar o custo da construção tradicional.”

“Saiu mais barato erguer paredes com garrafas de refrigerante?”, perguntei.

“Cinco vezes mais. A construção com materiais convencionais nos custaria R$ 10 mil; no fim, o gasto foi de R$ 2 mil.”

“Isso exigiu um tempo maior dos profissionais?”

“Não muito, padre Kubno. Apesar de ser uma técnica diferente a obra foi concluída em quatro meses.”

“Quem reuniu essas garrafas todas?”, perguntou Velva.

“Isso é uma coisa importante: não pedimos para aumentar o dízimo, nem fizemos empréstimos em todo o processo.”

“Os fiéis apanharam os ‘tijolos’ no lixo?”

“Sim, cara freira. Mas eles não foram os únicos: comerciantes da região, donos de lanchonetes e bares também deram sua contribuição. Num determinado momento, fizemos uma pequena promoção: cada criança que trouxesse uma garrafa ganhava uma “Essa obra agradou ao senhor?”, perguntei.

“Sim, padre Kubno. E acho que agradou ao Senhor também”, disse ele apontando para o alto, “porque conseguimos erguer um templo barato, bonito, bastante colorido e com boa iluminação natural. Foi uma lição de fé e de respeito ao meio ambiente.”

Saímos dali com boa impressão do pastor Jeremias. Quer dizer, não ficamos para ouvir o sermão nem sabemos o que ele e seus fiéis pensam a respeito de outras questões morais ou filosóficas.

Mas, quanto à obra, não tivemos dúvidas: era interessante e merecia ser levada ao conhecimento do pessoal de Tralfamador.

Já voávamos com a Vork pelos céus de Tubarão quando Velva terminou de fazer as anotações: “Essa é uma iniciativa muito conveniente, Kubno, pois só o Brasil produz mais de 470.000 toneladas de garrafas pet por ano.”

“Quanto por cento disso é reciclado?”

“Só metade.”

“Uau!”

“E o pior é que essas garrafas levam de duzentos a quinhentos anos para se decompor.”

“Que faremos agora, tenente Velva?”

“Quero saber um pouco mais a respeito do livro que inspira a fé cristã. Se encontrar passagens animadoras por lá, isso pode levar ao surgimento de novos padres e pastores verdes.”

“Com quem vamos falar?”

“Com Tertuliano, é claro.”

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