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Relatório 43: religião ajuda ou atrapalha?

7 abril 2011 1.767 visualizações Sem comentários

Vocês são testemunhas: no final do último relatório, Velva me mandou procurar o celular de deus, ou Deus. Isso me tomou horas. Horas! Quando finalmente fui falar para ela que tinha desistido, a tenente estourou numa gargalhada. Riu tanto que verteu água pelos orifícios e alguns de seus olhos caíram no chão.

“Se este ser realmente existe, Kubno, com certeza não se comunica através de um celular.”

“Por que me mandou procurá-lo, então?”

“Foi modo de dizer. Eu só estava pensando se a religião poderia ajudar a resolver os problemas ambientais.”

“E…?”

“Ainda não descobri nada, mas já reuni alguns dados bem interessantes. Quer ouvir?”

“Eu tenho escolha?”

“Em tempos mais remotos, quando a ordem civil ainda não tinha sido instaurada, a religião foi um importante fator de coesão social e reforço da identidade, agrupando os humanos em torno de valores e sentimentos comuns.”

“E os que não creem no além?”

“Bem, esses só começaram a manifestar publicamente sua descrença a partir do século XVIII.”

“Por quê?”

Velva acionou a Máquina de Rápido Recuo ao Tempo Antigo, a Marreta, e nos transportou a uma praça em Portugal. Portugal do século XVII. Nós nos aproximamos com os sistemas de invisibilidade ligados e vimos algumas pessoas sendo amarradas a troncos. Depois um religioso ateou fogo a um monte de palha abaixo de seus pés.

“Isso responde à sua pergunta?”, ela perguntou.

“Calorosamente.”

Voltamos, em seguida, para o século XXI. Velva ordenou que eu conduzisse a Vork até os céus gelados da Escandinávia. Quando chegamos, ela apontou para baixo e “Segundo a Enciclopédia Britânica, hoje apenas 2,5 % da sociedade mundial se descrevem como ateístas. Outros 20% seriam agnósticos ou deístas.”

“Por que estamos na Suécia?”

“Porque é o país menos devoto do mundo. Ali embaixo 85% das pessoas não creem que um ser superior regula suas vidas.”

“Uau!”

“Quer que eu te fale dos religiosos agora?”

“Eu tenho escolha?”

Não tinha, claro.

Velva ordenou que eu conduzisse a Vork até os céus escaldantes da Arábia Saudita. Quando chegamos, ela apontou para baixo e falou:

“Os religiosos são a maioria entre os humanos: os cristãos, em suas diferentes denominações, representam quase 25% da população mundial, mas são seguidos de perto pelos islamistas e hinduístas. Só esses três grupos têm mais de quatro bilhões de crentes.”

“Não acredito!”

“Foi um péssimo trocadilho.”

“Ora, tenente, você adora meus trocadilhos.”

“Faça mais um e você verá o quanto.”

“Bem”, disse eu engolindo em seco, “até agora não entendi o que isso tem a ver com nosso objeto de pesquisa: a ecologia.”

“É exatamente isso que quero pesquisar a partir de agora, Kubno. Os ateus são normalmente mais receptivos a argumentos científicos, mas eles não têm representatividade estatística.”

“Você quer verificar, então, como a religião está tratando do tema da preservação do planeta?”

“Exatamente, Kubno. Um pastor tem alto poder de comando em relação às suas ovelhas, não é?”

“É-é-é-é-é.”

“Talvez ele não possa fazer muito para evitar que os humanos desejem a mulher do próximo ou cobicem os bens uns dos outros, mas pode ser decisivo para evitar o apocalipse ambiental.”

“Foi um péssimo trocadilho, tenete Velva.”

“Diga-me com quem andas e te direi quem és.”

“Muito bem, tenente Velva, por onde vamos começar?”

“Por Tubarão.”

“O bicho?”

“Não. A cidade.”

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