Home » Relatório Extraterrestre

Relatório 42: alguém sabe o celular de Deus?

6 abril 2011 1.490 visualizações Sem comentários

Velva lia um livro. Devia ser um bom livro, pois de vez em quando ela sorria com suas vinte bocas e oitocentos dentes. Ah, que doce imagem…

De repente, ela estancou e disse:

“Vamos para a Londres de 1719, Kubno.”

“Por quê?”

“Quero conhecer o autor deste livro.”

“Um escritor? Mas eles são tão inúteis…”

“É verdade. Mas este aqui escreveu sobre a ligação entre o homem e a natureza. Vamos logo!”

“Seu desejo é uma ordem.”

“Minha ordem é uma ordem.”

“Se este é o seu desejo…”

Apanhei a Máquina de Rápido Recuo ao Tempo Anterior – a boa e velha Marreta, programei-a e dei pancadas em nossas cabeças, digo, nas nossas cabeças centrais. Se fosse bater em todas, levaria uma eternidade.

Num piscar de olhos estávamos diante da casa do tal escritor inglês. Tão logo o homem abriu a porta, fizemos nossas apresentações:

“Bom dia, sou lorde Velvet.”

“E eu, lorde Kubrick.”

“Já larguei a política”, disse o homem. “Cansei de ir para a cadeia. Agora só me dedico à literatura.”

“É sobre isso que queremos falar.”

“Pois então entrem, nobres senhores, a casa do vosso servo Daniel Defoe é pequena, mas o coração que nela habita é grande.”

Sentamos em duas cadeiras indignas das bundas de dois ministros do parlamento do rei George. Enquanto tomávamos chá, lorde Velvet perguntou:

“Gostaríamos de falar sobre seu novo livro, senhor Defoe.”

Ele se ajeitou na cadeira, limpou a garganta e disse:

“Pois bem, vamos lá. Para começo de conversa, digo que seu título é bem grande: ‘A vida e as surpreendentes e estranhas aventuras do marinheiro Robinson Crusoe, de York, que viveu vinte e oito anos sozinho em uma ilha desabitada na costa da América, perto da boca do grande rio Orinoco; tendo sido lançado em terra por um naufrágio em que todos os homens pereceram, menos ele. Com um relato de como, no fim das contas, foi estranhamente resgatado por piratas’.”

“Sim, é um título bem comprido.”

“Acho que no futuro ele será conhecido apenas como ‘Robinson Crusoe’.”

“E qual a ideologia deste livro, senhor?”

“Bem, lorde Velvet, creio que ele manifesta uma indisfarçável confiança no poder do engenho humano e na sua capacidade de superar as mais hostis adversidades impostas pela natureza.”

“O senhor não considera que subjugar a natureza pode ser algo perigoso para as próximas gerações?”

“Qual a utilidade das florestas, lorde Kubrick? Oferecer madeira para o homem.

Qual a função das plantas? Curar nossas doenças. Qual o sentido de haverem animais?

Saciar nossa fome. Por que Deus criou os selvagens? Para que emprestem braços ao nosso projeto colonizador. Um único homem pode subjugar uma ilha, e é o que demonstro em meu trabalho.”

“Senhor Defoe, importa-se se eu falar com lorde Kubrick a sós por um momento?”

“De maneira nenhuma, lorde Velvet.”

“Ótimo.”

Depois de lançar um raio paralisante sobre o escritor, Velva falou:

“Esse homem escreve bem, mas não percebe que suas ideias são perigosas para a natureza. Como um homem tão inteligente pode ser tão tonto?”

Fiz ares de inteligente levantando minha xícara de chá e disse: “Caro lorde Velvet, devemos examinar o homem de acordo com seu tempo. Há trezentos anos, ninguém pensaria em efeito estufa e poucos falavam contra a escravidão.”

“Bem ponderado, lorde Kubrick. Não esperava uma reflexão tão inteligente de vossa excelência.”

“Ora, lorde Velvet, posso ser mais surpreendente ainda…”

Então fechei os olhos e fiz um biquinho. Mas, quando ia beijar lorde Velvet, digo, Velva, o telefone da sua corcova começou a tocar. Era uma mensagem de Tralfamador.

“Tenente Velva e cabo Kubno, o tempo de sua pesquisa está em vias de expirar. Enviem seu veredicto o mais rapidamente possível, pois queremos saber se admitimos a Terra na Copula ou simplesmente acabamos com o planeta. Bom trabalho e até logo.”

“E agora, Velva, quem poderá ajudar esses infelizes?”, perguntei.

“Deus. Localize o celular dele.”

Tags:

Compartilhe por e-mail Compartilhe pelo Facebook Compartilhe pelo Twitter Compartilhe pelo Google Bookmarks Compartilhe pelo Google Buzz Compartilhe pelo del.icio.us Compartilhe pelo Orkut Compartilhe pelo Windows Live Assine o RSS

Deixe seu comentário!

Adicione seu comentário abaixo, ou trackback de seu próprio site. Você também pode assinar esses comentários via RSS.

O uso de Gravatar está habilitado. Para ter seu próprio avatar, por favor se registre em Gravatar.