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Relatório 41: papo de minhoca

5 abril 2011 1.668 visualizações Sem comentários

Depois de assistir a dezenas de desenhos do Peixonauta, Velva ficou ainda mais entusiasmada com os projetos de educação voltados para crianças.

“Kubno, vamos para Florianópolis!”

“Chegamos, tenente.”

“Já?”

“Sou rápido. Mas também sei ser lento, se é que você me entende…”

“Para o seu bem, vou fingir que não entendo. Pouse no bairro Monte Cristo.”

“Há algo de interessante lá?”

“Minhas pesquisas dizem que sim. E tomara que seja verdade, pois ainda não escrevemos nada hoje.”

A pressa tinha seu motivo: nossos supervisores em Tralfamador estavam pedindo relatórios diários.

Assumimos a forma de minhocas e fomos nos alojar num terreno onde cresciam pés de alface, tomate, cenoura, manjericão, salsa, cebolinha e uma dezena de outros vegetais e legumes. Velva queria estudar o solo, mas um minhocão logo veio dando as boas vindas.

Ele tinha o dobro do nosso tamanho: “Salve, camaradas!”

“Puxa!”, exclamei. “Como você é gordo.”

“Gordo não, saudável. Aqui nunca falta comida.”

“E a que se deve isso?”, Velva perguntou. “À fertilidade do solo, à riqueza de nutrientes, ao regime de pluviosidade?”

“Aos baldinhos.”

Não fizemos cara de espanto porque minhocas não fazem cara de espanto. Mas o grandalhão era esperto: logo entendeu que nosso silêncio era um ponto de exclamação seguido de um ponto de interrogação.

“O chão aqui em cima era o maior chiqueiro há dois anos. Ratos e baratas passeavam para lá e para cá, e você encontrava restos de comida para onde quer que olhasse.”

“O que fez as coisas mudarem?”, Velva perguntou.

“Os baldinhos.”

“Você quer que eu pergunte o que são esses baldinhos ou vai responder direto dessa vez?”

“Calma, amiga, já explico. A situação estava ficando preta, até que um dia o pessoal do Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo, Cepagro, veio com uma proposta: em vez de lançar o lixo orgânico nas ruas, por que não recolhê-lo e transformá-lo em adubo?”

“Muito interessante”, Velva comentou. “Mas o que isso tem a ver com baldinhos?”

“Veja bem: no começo apenas cinco colaboraram com o projeto; hoje são 95.”

“Baldinhos”, perguntei?

“Não, famílias. Nos primeiros tempos, uma voluntária passava de casa em casa e recolhia o material.”

“Num baldinho?”, eu de novo.

“Não, num carrinho de supermercado. Hoje as próprias famílias depositam o lixo num dos trinta postos de entrega voluntária, onde o material é coletado duas vezes por semana.”

“Já sei. Os postos tinham a forma de um balde.”

“Não, mas sem dúvida foram um elo nessa cadeia que processa seis toneladas mensais de sobras.”

“É o que eu chamo de prática sustentável”, Velva comentou. “Só não entendi ainda o que isso tem a ver com…”

“Um futuro melhor? Um novo amanhã? Tudo, minha cara. Em Florianópolis são produzidos em média 12,3 mil toneladas de lixo por mês, sendo que 48% desses resíduos são matéria orgânica. Imagine se tivéssemos pátios de compostagem espalhados pela cidade, fazendo com que esse lixo se transformasse em adubo. Seria maravilhoso!”

“Vamos embora, Kubno”, disse Velva piscando para mim.

“Como assim?”, o minhocão se assustou, “Vocês não querem saber por que isso tudo se deve aos baldinhos?”

“Não, obrigada”, ela falou. “Já aprendemos o bastante por hoje.”

“Mas… Mas.”

“Adeus.”

Depois fizemos uma consulta no Google. A coisa toda recebeu aquele nome estranho porque, no começo, as crianças dessas comunidades juntavam o lixo orgânico de suas casas num pequeno recipiente e o levavam aos postos de recolhimento.

Assim eles conquistaram limpeza, comida e auto-estima. Nada mal para um baldinho.

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