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Relatório 39: o dia que banquei o jojolão

30 março 2011 1.746 visualizações Sem comentários

Depois da visita às baleias francas, eu e Velva fomos conhecer uma tribo diferente: os seus naturais raramente trabalhavam, usavam pouca roupa e cobriam-se de tatuagens. Falavam, também, um dialeto próprio.

“Por que vamos conversar com eles, tenente?”

“Porque as pesquisas mostraram que eles têm projetos na área de educação, Kubno, e educação é o que pode salvar esse planeta.”

Assumi a forma de um rapaz magro, bronzeado e cabeludo, e Velva, o de uma garota magra, bronzeada e cabeluda. Seguindo os costumes dos aborígenes, volta e meia nos besuntávamos com um composto esbranquiçado para nos proteger do sol.

“Podemos nos aproximar?”

“Sim, Kubno. Já estou sintonizando um dicionário que nos fará falar no idioma deles.”

Chegamos, então, perto de um tipo magro, bronzeado e cabeludo que estava sentado sobre um monte de areia e observava o quebrar das ondas. Velva me deu um cutucão e eu puxei conversa.

“Aloha, brô, rola um papo ‘classe A’ aqui comigo e com a maria parafina?

Mas ó, coisa de prô, tá ligado?, senão vai rolar o mó kaô e eu vou bancar o jojolão pra chefia.”

“Podem falar português”, o nativo respondeu. “Não é porque a gente é surfista que precisa usar gíria.”

“Ufa!”, exclamou Velva. “Como é seu nome, rapaz?”

“O pessoal me chama de Flipper.”

“Viemos até o seu país, Flipper, porque soubemos que havia um grupo de surfe envolvido na luta pelo meio-ambiente.”

“Um não, vários!”

“!”

“Querem que eu cite alguns?”

“Ok, estou anotando”, disse Velva.

“Assim, de memória, tem os caras do Procurando Caminho, a Associação Responsável Ilhas do Brasil, a galera do Aces e o do Ecosurfistas Moçambique, isso em Santa Catarina. Quem mais? No Rio tem o pessoal da Feserj, o Onda Azul. No Ceará tem o Surfando nas Ondas. Na Bahia, o Praia Limpa. Em São Paulo tem uma Associação que junta aquele pessoal do litoral sul, a turma do Projeto Ondas e o Maresias Surf. Isso que me veio à cabeça. Mas tem mais. Está todo mundo na onda do surfe sustentável.”

“Que é isso?”

“É o seguinte: a gente quer pegar onda num cenário bacana, não no meio de garrafas pet. E a gente quer que os nossos filhos também possam curtir esse visual show.”

“Mas o que vocês fazem, na verdade?”

“Damos palestras para a molecada, realizamos campanhas, fazemos mutirões de despoluição e até coletamos material para encaminhar à reciclagem.”

“Isso sempre foi assim?”

“Para falar a verdade, não. Os surfistas de antigamente eram uns cabeças oca mesmo. Hoje não, hoje o pessoal participa mais das coisas e está ligado nessa história de ecologia.”

“E de educação.”

“Pode crer. Quando a gente dá uma força na educação, as pessoas passam a ter um novo olhar para a praia. É mó style esse barato!”

A conversa foi curta, mas produtiva. Velva ficou feliz com suas anotações e disse que queria partir:

“Vamos, Kubno, já coletei dados suficientes.”

Mas eu poderia ir embora sem antes tentar uma manobra em cima daquelas ondas ondulantes? Não, é claro que não. Pedi emprestada a prancha de Flipper e me lancei no mar e fiquei à espera.

A onda veio. Foi uma experiência rápida. E vexatória.

Escorreguei na prancha, dei um giro no ar e bati o nariz na quilha. Depois fiquei sendo atirado pela água para lá e para cá até vir dar na praia com um monte de algas agarradas ao corpo.

Velva deu um assobio e gritou na língua local: “Aí, jacão, gostei da vaca. Se quebrou legal!”

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