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Relatório 38: sexo, afinal!

28 março 2011 1.781 visualizações Sem comentários

Eu girava minhas nadadeiras para dar parafusos. Já Velva nadava placidamente, soltando vapor pelo seu espiráculo. Tínhamos nos transformado em duas baleias. Duas baleias-francas para ser exato.

“Puxa vida, Kubno, que delícia nadar!”

“Iurru! Isso é demais!”

Para quem não sabe a baleia-franca é um mamífero marinho. Elas só não têm o corpo inteiramente negro porque há uma mancha branca na barriga e calosidades amarelecidas no alto da cabeça.

Encontramos um grupo numeroso no mar do Brasil, mais precisamente numa faixa entre Florianópolis e Laguna.

“Vamos entrevistá-las, tenente?”

“Não, seu palerma, assumimos a forma delas só para ficar olhando; daqui a pouco vamos embora.”

Podem me chamar de marido de malandra, mas quanto mais ela me maltrata, mais eu me apaixono.

Logo um indivíduo se aproximou de nós. Era uma jovem. Ela puxou conversa emitindo um som todo peculiar que, para mim, era tão encantador como a música de Bach, Mozart ou Gilson de Souza.

“Olá, amigos”, disse a garota. “Bem vindos à nossa Área de Proteção Ambiental.”

“Área de Proteção? Quer dizer que estamos a salvo aqui?”, perguntei.

“Nossa espécie foi declarada monumento natural estadual em 1995, e, desde o ano 2000, essa extensão de 130 quilômetros foi separada especialmente para concentração reprodutiva.”

“Você ouviu, Velva: concentração reprodutiva.”

Ignorando-me como sempre, a tenente perguntou à jovem baleia: “Diga-me, meu amor, houve alguma razão para que os governos se preocupassem com vocês?”

“Na verdade eles só começaram a nos dar atenção depois que os primeiros ambientalistas fizeram barulho.”

“Citaria alguém em particular?”

“O vice-almirante Ibsen Gusmão da Câmara foi um pioneiro. Por iniciativa própria, ele viajou pelo litoral brasileiro colhendo depoimentos de pescadores que testemunhavam nossas aparições. Foi assim que descobriram que essa era uma área ideal para nossa reprodução.”

Não pude me conter: “Você ouviu, Velva: ideal para reprodução.”

Novamente, ela me ignorou.

“Mas diga, garota, como era a vida de vocês antes?”

“Eu sou nova e já peguei o período sossegado, mas os antigos contam histórias terríveis. A Igreja Matriz de Garopaba foi construída com uma argamassa que usava gordura nossa, e a iluminação da cidade acontecia graças ao óleo dos meus antepassados.”

“Uau!”, disse eu, voltando à conversa.

“Chegamos a ser a segunda espécie de baleia mais ameaçada de extinção do planeta, mas, graças ao pessoal do Projeto Baleia Franca, nossa realidade mudou um bocado.”

“Esse pessoal realiza alguma ação educativa?”

“Sim. Eles visitam escolas de região, realizam passeios de escuna para que as pessoas nos conheçam e não param de fazer campanhas de conscientização. O resultado é que a gente pode nadar para cima e para baixo sem medo de ser perfurada por um arpão.”

Velva distraiu-se por um minuto e a jovem baleia se aproximou. Batendo com a barbatana no meu ventre, ela falou: “E aí, cetáceo, nós viemos aqui para reproduzir ou para conversar?”

Fiquei tão entusiasmado com aquele convite que saí nadando feito louco.

Avancei em direção à superfície, saltei dois metros acima da lâmina d’água e soltei um esguicho de felicidade.

Quando voltei, Velva tinha voltado à aparência tralfamadoriana. Ela apontava o mutômetro para mim:

“Sinto muito, Kubno, estamos a trabalho.”

“Mas… mas…”

“Não tem mas, nem menos”, disse ela me fazendo voltar à forma original.

Enquanto a baleia fugia assustada, ela continuou: “Quando você voltar a Tralfamador vai ter tempo de sobra para sair com piranhas como aquela.”

É, o mar não está para peixe…

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