Home » Relatório Extraterrestre

Relatório 37: o bom selvagem

25 março 2011 1.816 visualizações Sem comentários

Jean Jacques Rousseau nos recebeu em sua casa de Paris. Acho que ele não esperava se deparar com um casal de índios quando abriu a porta.

“Não vai nos convidar para entrar?”, perguntou Velva falando francês. “Somos bons selvagens.”

“Claro”, disse ele apontando para o interior da residência. “Deixem-me apenas apanhar umas roupas para vocês.”

Só para refrescar a memória, Velva estava desanimada com as pesquisas após ter estudado as relações de ecologia e poder.

Ela, começou, então, a acreditar que a educação seria uma forma de consertar esse planeta maluco. Foi quando teve a ideia de procurar o tal filósofo Rousseau, que era muito famoso por suas ideias relativas à educação, e descobrir o que ele pensava a respeito.

O velho era um misantropo, mas, por outro lado tinha um enorme amor por tudo que fosse verde. Tanto que na casa dele havia um herbário, onde coletava plantas e as guardava e descrevia com disciplina e carinho.

“Vejo que o senhor é um amante da natureza”, Velva observou.

“Nos tempos primordiais, os elementos foram adversários do homem, inspirando-lhe temores e crendices. Hoje, com o triunfo da razão, não há porque não considerá-los parte de nós mesmos.”

“E quanto ao ser humano? O senhor tem esperanças nele?”

“Teoricamente sim: o homem é bom, a sociedade é que o corrompe.”

“Pelo que vi até agora, ele também é perfeitamente capaz de fazer o mal por si só.”

“Teríamos evitado isso se tivéssemos conservado a maneira de viver simples que nos era prescrita pela lei natural.”

“O senhor acredita, então, que a comunhão com a natureza é importante na educação humana.”

“Sim, senhora. Faço oposição ao pensamento utilitarista de René Descartes, segundo o qual todo o esforço da razão deve ser voltado para tornar a ação do homem mais eficaz. Isto leva a um comportamento de posse e senhorio em relação ao mundo natural.”

“Contra isso o senhor propõe o quê?”

“Uma convivência amistosa. As árvores, os arbustos, as plantas são o enfeite e a vestimenta da terra. Nada é tão triste como o aspecto de um campo nu e sem vegetação, que somente expõe diante dos olhos pedras, limo e areias. Mas, vivificada pela natureza e revestida com seu vestido de núpcias no meio do curso das águas e do canto dos pássaros, a terra oferece ao homem, na harmonia dos três reinos, um espetáculo cheio
de vida, de interesse e de encanto, único espetáculo do mundo de que seus olhos e seu coração nunca se cansam.”

Vou confessar uma coisa: dormi no meio dessa frase.

Velva não. Me deu uma cotovelada e continuou interessada na exposição.

“E como uma educação natural se daria de maneira prática?”, ela perguntou.

“Nunca se deve trocar a coisa pela representação da coisa, porque se isso acontece, o homem presta mais atenção na representação do que na coisa. A geografia deve ser aprendida nos bosques; a botânica, em contato com as plantas. Esse simples fato mudará nossa perspectiva.”

“Uma caminhada poderia ser uma aula?”

“Sim, o estudo da natureza afasta o gosto pelos divertimentos frívolos, previne contra o tumulto das paixões e fortalece a alma. Sem esse convívio, nenhum processo benigno terá continuidade. O contato com os prados, as águas, os bosques, a solidão, a paz, e, sobretudo, o repouso que se encontra em tudo isso pode fazer do homem uma criatura melhor.”

“Fiquei feliz por conversar com o senhor.”

“Igualmente.”

“Quem recomendaria que entrevistássemos agora?”

Rousseau olhou para sua estante e apanhou um livro sobre pesca: “Por que não tentam uma baleia?”

Acho que ele falou aquilo brincando. Mas Velva nunca brincava. Ela levou a sugestão a sério.

Tags:

Compartilhe por e-mail Compartilhe pelo Facebook Compartilhe pelo Twitter Compartilhe pelo Google Bookmarks Compartilhe pelo Google Buzz Compartilhe pelo del.icio.us Compartilhe pelo Orkut Compartilhe pelo Windows Live Assine o RSS

Deixe seu comentário!

Adicione seu comentário abaixo, ou trackback de seu próprio site. Você também pode assinar esses comentários via RSS.

O uso de Gravatar está habilitado. Para ter seu próprio avatar, por favor se registre em Gravatar.