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Relatório 35: reflexões de uma anta

21 março 2011 1.695 visualizações Sem comentários

A Amazônia era um dos lugares que Velva mais gostava de visitar. Eu não a culpo. Ali havia silêncio, boa sombra e o ar límpido lembrava a atmosfera do nosso querido planeta Tralfamador.

Para ficarmos à vontade, nos transformamos em duas antas.

“Sabe de uma coisa”, falou Velva enquanto urinava à beira de um igarapé. “Eu não ficaria triste se houvesse mais lugares como esse na Terra.”

“Concordo”, concordei enquanto mastigava um tufo de capim.

“Mas a obsessão por preservar não pode ser obstáculo para o desenvolvimento.”

“Por que, tenente Velva?”

“Por que o quê, Kubno? Eu não disse nada.”

“Eu disse”, falou alguém às nossas costas. Olhamos para trás e descobrimos quem tinha sido a autora da frase. Era uma anta como nós: “Prazer, amigos, sou Antonia.”

Balançamos nossas trombas e a convidamos para se aproximar. Antonia já chegou falando:

“Sabiam que aqui perto será instalada a Usina de Belo Monte? Sabiam que será a maior usina hidrelétrica brasileira, com potência de 11.233 megawatts. Seu lago terá 400 km2 e ela poderá abastecer uma região de 26 milhões de habitantes com perfil de consumo semelhante ao da Grande São Paulo. Só falta resolver um probleminha.”

“Que probleminha?”, perguntei.

“Houve um pequeno desentendimento com os índios”, explicou Antonia, a anta.

“Pequeno, mas que já dura vinte anos”, Velva entrou na conversa. Ela acabara de consultar seu computador de pulso. “As lideranças indígenas alegam que não foram consultadas numa decisão que lhes dizia respeito, e, no Encontro de Altamira, realizado em 1989, uma kaiapó chamada Tuíra chegou a esfregar a lâmina do facão no rosto de um diretor da Eletronorte.”

“Uma grosseria!”

“Que você me diz dos exemplos das hidrelétricas de Balbina e Tucuruí, que provocaram o desastre social e não forneceram a energia prometida?”

“Os erros do passado servem de base para os acertos do futuro.”

“Não te incomoda saber que pessoas pobres terão que fazer deslocamentos mais longos para conseguir assistência médica?”

“Tenho certeza de que o pessoal da usina construirá um posto de saúde.”

“Nove povos indígenas terão que se mudar.”

“Eles são nômades por natureza.”

“Alguns tipos de peixes desaparecerão e isso afetará a vida econômica dos pescadores.”

“O projeto gerará empregos diretos e indiretos.”

“A usina dependerá da sazonalidade das chuvas. Ou seja, na época de seca, apenas metade da energia alardeada será oferecida.”

“É muito para quem não tem nada.”

“Haverá aumento de população, pressão sobre terras indígenas, danos ao patrimônio arqueológico, alteração da qualidade da água, perda de jazidas de argila, interrupção de acessos viários, interrupção da navegação nos períodos de seca e uma perigosa aproximação com as frentes de expansão agrícola.”

“É o preço da evolução.”

Era difícil abater o otimismo da entusiasmada Antonia. Ainda assim, Velva fez uma última tentativa: “Parece que as obras ainda não começaram, não é?”

“Uma ação do ministério público pediu a suspensão delas, mas confio no Supremo e sei que essa ação será derrubada.”

Velva desistiu: “Ok, Kubno, vamos embora. Quero visitar a Eco-92. Quanto a você, Antonia, só posso desejar boa sorte.”

“Por que boa sorte?”

“Porque a área onde você está vai ser inundada.”

“Aqui? Tem certeza?”

“Tenho. As trilhas por onde você anda, o capim que você come, o riacho em que você bebe água, talvez você mesma vá sumir do mapa.”

“Mas como assim? Eu não fui consultada.”

“Esse é o problema, anta querida.”

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