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Relatório 34: ai, meu nariz!

18 março 2011 1.696 visualizações Sem comentários

Eu e Velva já tínhamos estado em Brasília uma vez: foi quando falamos com o presidente Jânio Quadros.

Vinte e sete anos depois, em 1988, a cidade tinha mudado um bocado. Da janela da Vork vimos que ela crescera e se espalhara, formando uma grande mancha em torno do Plano Piloto.

Mas, como sempre, repetia-se a equação: ricos de um lado, pobres de outro.

Nós queríamos acompanhar os trabalhos da Constituinte, e por isso nos transformamos em parlamentares. Eu de terno e pastinha preta; Velva de tailleur e bolsa combinando com os sapatos.

Estávamos aprendendo a nos disfarçar.

Chegando à entrada da Câmara, fomos barrados por um senhor de cabelos brancos:

“Ei, psss! Onde vocês pensam que vão?”

Olhei direito para ele e o reconheci: era o mesmo Adenor que tentara impedir nossa entrada em 1961.

“Somos parlamentares”, respondi.

“De que partido?”

“Partido de Tralfamador. PT.”

Adenor fez ares de aliviado e deu um sorriso: “Ah, sim, claro. Primeira porta à esquerda.”

Mais uns poucos passos e chegamos ao salão das sessões. Ali ocorria um debate acalorado sobre direitos dos povos da floresta.

“Que bom, Kubno, poderemos acompanhar um momento de progresso da legislação brasileira.”

“Progresso?”, perguntou um deputado que estava sentado ao nosso lado. O crachá dizia que seu nome era Agrário da Silva. “Bom, se ficar pescando o dia todo e se embriagar à noite for progresso, estamos indo na direção certa.”

“O senhor não gosta de índios?”, Velva perguntou.

“Eu adoro os índios, apesar de eles serem inúteis, preguiçosos, aproveitadores e folgados.”

“O senhor não contesta o direito de eles de possuírem terra?”

“Eu até daria alguma terra para eles, deputada, mas o que está se fazendo nessa Constituinte é um absurdo: de acordo com a última votação, 0,2% da população vai ficar com 13% do território.”

Agrário da Silva era afiado nos dados, mas ele não conhecia Velva. Isso só fazia aumentar seu ânimo para debater:

“Gostaria que o nobre colega me dissesse o que aconteceria com o território se ele não fosse transformado em reserva?”

“Digo com prazer, excelência, ele seria usado para gerar oportunidades econômicas.”

“Para os latifundiários e seus amigos.”

“As forças produtivas é que alavancam o desenvolvimento.”

“Um desenvolvimento que se dá às custas do uso de agrotóxicos; da disseminação de pragas, da perda de nutrientes do solo, do esgotamento das fontes de água, da morte da fauna e da flora, de danos irreversíveis à biodiversidade e, para ajudar, de êxodo rural.”

Quando terminou de falar, Velva olhou para os lados. Só então viu que estava cercada pelos membros da bancada ruralista, um grupo de parlamentares que defende os grandes proprietários rurais.

Eu ainda não sabia, mas a consciência dos deputados brasileiros é norteada por quem financia e garante sua eleição. Assim, se um grande fazendeiro dá dinheiro para sua campanha, o deputado vai apoiar suas reivindicações.

Ao ver que tinha o respaldo dos colegas, o deputado Agrário se empertigou: “A nobre colega não está metendo o nariz onde não foi chamada?”

Velva não gostou dos modos de Agrário e disse: “O seu nariz é que está no lugar errado. Mas eu dou um jeito.”

Então ela deu um tremendo soco no nariz do deputado.

Logo começou um empurra-empurra e estávamos cercados de seguranças.

“Vamos destruir o Congresso?”, propus.

“Não, Kubno, não podemos interferir na realidade.”

“Você já interferiu no nariz do Agrário.”

“Isso é pouca coisa. Não podemos interferir na história deles.”

“Para onde vamos, então?”

“Para o Xingu, em 1989. Quero ver o que aconteceu com a região depois de toda essa discussão.”

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