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Relatório 33: A vitória do empate

16 março 2011 1.672 visualizações Sem comentários

A sugestão do diabo nos pareceu boa e voltamos para o Brasil. Para o Acre mais precisamente; e em 1987 (quem leu o relatório 32, sabe que, quando eu digo “diabo” me refiro ao Diabo da Tasmânia).

“Posso fazer uma sugestão, tenente Velva?”

“Fale, cabo.”

“Por que não nos transformamos numa árvore dessa vez? Estou cansado de assumir a forma de animais.”

“Ok, Kubno, sugestão aceita.”

Já na floresta, viramos duas adoráveis seringueiras. Estávamos felizes, abrigando pássaros e recebendo o vento amazônico quando olhei para frente e dei um grito: “Nããão!”

“O quê?”, Velva perguntou assustada.

Olhando adiante vimos um trator. Ele marchava em nossa direção. Sim, nós íamos ser cortados.

“Kubno, saiba que apesar de você ser um palerma, egoísta, superficial, fútil e maníaco por espaçonaves, eu te a…”

Ela não concluiu a frase. Talvez porque o cara do trator tenha desligado o motor de repente.

“Saiam daí ou vou ter que matar vocês”, ele disse.

Então olhamos para baixo e vimos algo inacreditável: nós e as outras seringueiras estávamos sendo abraçados por centenas de pessoas.

“Caramba, esse é o famoso empate!”, Velva exclamou.

“Você poderia completar aquela frase? Eu te a…”

Acho que ela ia dizer qualquer coisa, mas um sujeito baixo, de cabelos lisos, olhos esbugalhados e bigode ralo se adiantou. Era Chico Mendes. Ele foi falar com o sujeito do trator.

“Amigo, a lei 7.511 determina que áreas onde existem maciços de seringueira não podem ser destruídas nem queimadas. A Portaria 486 diz no artigo 8°: fica proibido o corte e a comercialização da seringueira.”

O sujeito do trator coçou a cabeça. Chico Mendes foi em frente:

“Nós lutamos contra os desmatamentos, meu caro, mas não queremos que a Amazônia se transforme num santuário. Temos uma proposta economicamente viável para a região.”

O homem do trator já tinha descido do veículo. Agora ele e Chico Mendes estavam frente a frente.

“Podemos criar opções como a Cooperativa Agroextrativista, que já ajuda muitos seringueiros. Para você ter uma idéia, um marreteiro está comprando um quilo de borracha pelo preço de 200 cruzados. Já a Cooperativa paga 394 cruzados.”

“Tudo isso?”

“Sim, e podemos também explorar o óleo vegetal de tucumã, a copaíba, o patauá, o açaí, o babaçu. As árvores na Amazônia até hoje só foram destruídas, mas isso é um erro. Podemos ganhar dinheiro com a industrialização e a comercialização de seus produtos.”

O homem do trator e Chico Mendes agora conversavam sob nossa sombra.

Velva ficou orgulhosa com aquilo.

“Com o desmatamento as pessoas têm que migrar para a capital, e a chance de se dar mal lá é grande. Hoje os jornais do estado só falam de violência, assalto, marginalização.”

“Tenho uma filha em Rio Branco”, confessou o homem do trator. “Ela é prostituta lá.”

“É o caso de muitos que saem do seringal”, prosseguiu Chico Mendes. “Não sabem ler nem escrever, e aí, na cidade, não encontraram trabalho. Por isso temos que desenvolver nossa região.”

“O senhor me convenceu”, disse o homem do trator. “O patrão vai me esfolar, mas não vou destruir as seringueiras.”

“Foi uma boa decisão. Precisamos nos unir e mostrar nossa força, ainda mais agora que o país vai ter uma Assembléia Constituinte.”

“Mas, seu Chico”, perguntou o tratorista, “o senhor não tem medo de que algum fazendeiro um dia atire no senhor?”

“Tenho. E não quero morrer. Se descesse um enviado dos céus e me garantisse que minha morte iria fortalecer nossa luta até que valeria à pena. Mas a experiência nos ensina o contrário. Então, eu quero viver. Ato público e enterro numeroso não salvarão a Amazónia.”

Velva olhou seu computador de pulso e viu que Chico Mendes seria assassinado a mando de fazendeiros no dia 22 de dezembro de 1988. Mais que isso: viu que sua morte não seria em vão. Na época de Chico Mendes havia apenas quatro projetos de reservas extrativistas (Resex) em todo o Brasil. Porém, depois de sua morte o assunto ganhou importância e 20 anos depois já havia mais de 50 espalhadas em todo o Brasil.

Ela ficou emocionada com o fim da história e verteu látex. Achei que era uma boa hora para atacar.

“Então você poderia completar aquela frase?”

“Claro.”

“Vá em frente, baby.”

“Eu te a… guento.”

“Droga…”

“Por quê? O que você esperava? Bem, não importa. Pegue a Marreta e nos transportamos para 1988. Quero assistir a uma sessão dessa tal de Constituinte.”

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