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Relatório 32: Entrevista com um diabo

14 março 2011 1.860 visualizações Sem comentários

Depois de viajar com a Vork sobre as ondas do Pacífico, chegamos a uma ilha chamada Tasmânia, que ficava 240 km a sudeste da Austrália. Já em terra, assumimos o formato de dois Sarcophilus harrissi. Nossa pelagem era escura, claro, e tínhamos a tradicional mancha branca ao redor da garganta.

“Estou bonito?”, perguntei para Velva enquanto alisava meus bigodes.

“Você nunca fica bonito, Kubno.”

Não demorou um minuto e um indivíduo da mesma espécie se aproximou. Seu nome era George. Ele foi logo puxando conversa: “Dia fraco hoje, não? A maldita crise está afastando os turistas.”

“Não estamos nem aí com os turistas, George”, Velva disparou. “Estamos pesquisando sobre a recuperação da qualidade de vida no planeta através de práticas sustentáveis.”

“Ah, sim a baboseira ambiental.”

“Que você disse?”

“Não me leve a mal, cara diaba, mas eu gosto mesmo é de comer as porcarias que os turistas atiram para nós. Isso e posar para fotos.”

Um Diabo da Tasmânia normalmente já é um animal encrenqueiro. Fiquei imaginando, então, o que Velva faria caso ficasse zangada com aquele pobre diabo. Resolvi interferir:

“Diga-me, George, você sabe se o início da luta em defesa do meio ambiente se deu mesmo nesta ilha?”

“Bom, tem uma história que os guias vivem contando para os turistas”, disse George. “Se bem me lembro, começa assim: em 1972 um grupo chamado United Tasmanian Group se mobilizou e fez protestos para impedir o transbordamento do Lago Pedder.”

“Por que queriam isso?”, Velva grunhiu, voltando à conversa.

“Diziam que o transbordamento ia causar a destruição das praias de quartzito e dos ecossistemas. Tudo verdade, mas os empreiteiros que queriam construir a represa estavam loucos para pôr as patas numa verba pública e alegaram que a ilha precisava renovar as fontes de energia.”

“O movimento vingou?”

“O dos empreiteiros, sim.”

“E quanto aos ecologistas?”

“Fizeram barulho pelo menos. A notícia se espalhou pela Austrália e pelo mundo afora. Mais tarde eles resolveram formar uma agremiação política e adotaram o nome de Green Party.”

“Sim, o Partido Verde”, Velva queria mostrar que tinha feito sua pesquisa. “Mas foi na Alemanha que eles conseguiram fama mundial.”

“Graças a militantes bacanas como Otto Schily, Petra Kelly e até o Joschka Fisher, caras que protestavam contra a poluição, a guerra, a perseguição aos homossexuais, o uso de energia nuclear e o mais importante…”

“O modus vivendi predatório da sociedade moderna?”, Velva arriscou.

“Não, a crueldade contra os animais.”

“Se tivesse que escolher um partido para votar, seria o Partido Verde?”, Velva perguntou balançando o rabo.

“Talvez…”

Eu e Velva olhamos para nosso amigo com cara de como quem diz: você não vai nos explicar a razão desse desânimo, George?

“Não me levem a mal. Acho maravilhoso quando um grupo de românticos vai à luta. O problema é que, com o passar do tempo, os burocratas, os chatos, os carreiristas e os espertalhões acabam se apoderando dos cargos. Aí babau, lá se vai a energia revolucionária do começo.”

“Que você sugere para a nossa pesquisa, George?”

“Que vocês estudem a vida de pessoas com ‘alma’ verde, sacou? Já ouviram falar do Brasil?”

Eu e Velva trocamos um olhar de como quem diz: hmm!

George, o diabo, continuou: “Tem um cara incrível lá. O nome é Chico alguma coisa.”

“Anísio? Bento? Buarque? Caruso? César? Science? Xavier?”, arrisquei

“Cara, onde você guarda todos esses nomes?”

“Na mente.”

“Mendes! É isso: Chico Mendes. Esse é o cara!”

E lá fomos nós para o Pará.

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