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Relatório 31: Batman e a noiva

10 março 2011 1.786 visualizações Sem comentários

Depois de estudarmos o Parque do Xingu, Velva decidiu conhecer a Transamazônica.

“Primeiro vamos visitá-la no tempo presente, Kubno.”

“Você manda.”

Estacionei a Vork ao lado de uma castanheira. Achei que era uma boa vaga, mas um macaco veio falar conosco em seguida: “Vocês vão deixar o carro aí?”

“Algum problema?”, perguntei.

“Quando as castanheiras florescem é sinal de que a estação de chuvas vai começar. Ela dura seis meses e isso aqui vira um atoleiro.”

Seguimos o conselho do macaco e fizemos um sobrevoo pela região que cobre os estados do Pará e Amazonas. Fiquei espantado com o que vi:

“Como alguém pode chamar essa picada de rodovia?”

Velva consultou o computador de pulso e descobriu coisa pior: no trecho da Amazônia Legal vivem 1,2 milhão de pessoas.

Bem, “vivem” é modo de dizer.

Visitando uma comunidade da cidade de Rurópolis (cidade do Pará, com cerca de 30 mil habitantes), ela constatou alguns índices sociais desanimadores. O de analfabetismo, por exemplo, ali ele era o dobro da média nacional. Além disso, 66% dos moradores não tinham acesso a água encanada e 27% nunca viram instalações sanitárias. Energia elétrica? Nem pensar. Até há atividade agrícola, mas o frete é caro e o produto não compete com o de outras regiões.

“Vamos falar com alguém, Kubno.”

Assumimos a forma de pesquisadores e chegamos à palhoça de um militar aposentado chamado Luiz Moura. Ele tinha acabado de se recuperar de um surto de malária.

“Senhor Moura, o senhor gosta desse lugar?”

“Se eu gosto? Claro. Quem não gosta de viver isolado debaixo de um calor inclemente? É maravilhoso. E sabia que agora, no período de chuvas, se quiser chegar a qualquer lugar vou levar três vezes o tempo que levo normalmente. Como alguém pode não gostar de viver aqui?”

Saindo de lá, comentei com Velva: “Você acha que ele foi irônico?”

“Não sei, Kubno. Mas agora fiquei curiosa: quero ver como era esse lugar há alguns anos.”

Depois de usar a Marreta (MÁquina de Rápido REcuo ao Tempo Anterior), aparecemos em 1970. Motosserras derrubavam árvores e tratores abriam caminho na mata. Como não pensamos num traje particular, apertei o botão do mutômetro aleatoriamente. Assim assumi a figura de um personagem de HQs chamado Batman e Velva, a de uma noiva; com vestido e tudo.

Isso não devia ser comum, pois chamamos a atenção de um jovem militar: “Olá amigos. Sou o sargento Luiz Moura.”

“Bom-dia”, disse Velva achando graça na coincidência. “Diga-me uma coisa, aqui é Rurópolis?”

“Talvez no futuro, senhora”, respondeu ele com ar superior. “Por enquanto é um projeto de agrovila.”

Erguemos nossas sobrancelhas. Ele continuou:

“Agrovila é um assentamento que fará parte do projeto de colonização nas margens da Transamazônica.”

“Fale-me mais sobre isso”, disse Velva atirando longe o buquê e apanhando o caderno de notas.

“O governo pretende trazer para cá flagelados pela seca que, do contrário, migrariam para o Sul, indo morar em favelas.”

“Parece interessante.”

“Parece não, é. Essas comunidades terão até 64 famílias com escola, posto médico, igreja ecumênica e pequenas unidades de comércio. Vai dar muito certo! Quem não gostaria de morar aqui, com ar puro e espaço? Agora, com licença que tenho que trabalhar.” E então ele afastou-se cantando: “Este é um país que vai pra frente…”

Quando ele se afastou, perguntei para Velva: “O país parece que vai para frente. E nós?”

“Nós vamos para um lugar longe no espaço e perto no tempo.”

“Hein?”

“Austrália. 1972”

“Com quem você vai querer falar lá?”

“Com o diabo.”

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