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Relatório 30: Meu duelo com Jânio Quadros

4 março 2011 1.817 visualizações Sem comentários

O interesse de Velva pela Amazônia a levou às pesquisas, e as pesquisas a levaram a descobrir um lugar: o Parque Indígena do Xingu. O Parque é uma extensão de 2.642.003 hectares situado no nordeste de Mato Grosso. É terra para chuchu. Ali vivem mais ou menos cinco mil indivíduos pertencentes a dezesseis povos indígenas. Como a área foi homologada em 1961, a tenente Velva ordenou que voltássemos àquele ano.

“Na forma humana?”

“Não, na forma de girafas cor-de-rosa.”

Custava ter respondido com educação?

Chegando ao Palácio do Planalto, fomos barrados por um jovem de paletó preto.

Ele se chamava Adenor. Devia ser segurança ou algo assim: “Ei, psss! Onde pensam que vão?”

“Falar com o presidente Jânio Quadros.”

“Mas como assim? Vocês são o quê?”

“Embaixadores.”

“De onde?”

“Tralfamador.”

Adenor franziu a testa, coçou a cabeça, depois de um sorriso estranho e disse: “Ah, sim, Tralfamador. Lindo país. Terceira porta à esquerda.”

O presidente tomava um pequeno copo de, creio, água quando entramos pela sala:

“Como ser-vos-ia útil, prezados dignitários?”

Velva respondeu: “Viemos fazer uma pesquisa sobre o Parque do Xingu, presidente, e gostaríamos de saber como ele foi criado.”

“Bela senhorita, a ideia do Parque remonta ao ano de 1952. Ele foi idealizado por sertanistas famosos do Brasil.”

“Os irmãos Villas-Boas?”

“Exatamente. Vejo que além de formosa, sois inteligente.”

“Obrigada.”

“Inicialmente pensou-se numa área maior, mas o governo de Mato Grosso foi concedendo terras a companhias colonizadoras; agora, no momento em que o criei, ele tem apenas um quarto do volume original.”

“Qual o propósito do Parque?”

“Formosa embaixadora de aprazíveis pernas, dir-vos-ei que é garantir a proteção da natureza e dos povos indígenas, sabidamente ingênuos e vulneráveis às influências do homem branco.”

“O senhor acha que ele pode ser invadido?”

“Encantadora musa, não vejo risco. A área é longínqua e inóspita, não convidando à aproximação; ao contrário dos vossos lábios, que convidam ao mais ardente beijo.”

Aquilo estava passando dos limites. Mas fui engolindo seco.

“E se eu disser”, Velva continuou, “que daqui a vinte anos ocorrerão invasões de caçadores e pescadores; e que daqui a quarenta anos o Parque será uma isolada mancha verde cercada de pastos e monocultura da soja.”

“Responder-vos-ia que isso é um exercício de profecia, e que, olhando para a senhorita, eu tenho vaticínios mais prazerosos.”

Aquela cantada me deixou com tanta raiva que desliguei o mutômetro e assumimos nossas formas reais.

“Céus! Preciso parar de beber! Estou tendo alucinações!”, disse o presidente.

“Se este é o problema, deixe comigo”, falei. Então saquei minha pistola desintegradora e atirei numas garrafas.

“Meu Chivas Regal!”, ele exclamou com lágrimas nos olhos. “Oh, forças terríveis se levantam contra mim…”

Coloquei um tentáculo na ponta de seu nariz e disse: “Bigode de vassoura, chega de cantadas baratas.”

“Claro, claro.”

Velva, rindo, indagou: “Não sou mais bela, formosa e encantadora?”

O presidente chacoalhou a cabeça de um lado para o outro diversas vezes, como que dizendo: Não, não, não!

“Está dizendo que sou feia para seus padrões?”

“Imagine, você é maravilhosa!”

“Como?”, perguntei apontando-lhe minha arma.

Sem saber o que fazer, ele botou as mãos sobre a cabeça e disse: “Se elogio, sou ameaçado, se não elogio, também… Minha única saída é renunciar…”

O presidente sentou-se e começou a escrever alguma coisa. Perguntei para Velva: “Vamos pegar a estrada?”,

Ela me respondeu: “Sim, mas não uma muito boa. Vamos visitar a Transamazônica.”

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