Home » Relatório Extraterrestre

Relatório 29: Eu odeio carros!

2 março 2011 2.072 visualizações Sem comentários

A tenente Velva ficou entusiasmada com a história da religião verde e, como sempre, foi fazer pesquisas.

Já eu resolvi polir a lataria da Vork. Não que precisasse, eu apenas sou cuidadoso com minha espaçonave.

“E aí, Kubno, pronto?”

“Estou sempre pronto para você.”

“Que ótimo. Então vamos entrevistar o inimigo do futuro.”

“Quem?”

Ela não respondeu, é claro. Sabia que tinha me fisgado.

Chegamos à Inglaterra do século XVIII na forma de Shakespeare e de Margareth Tatcher. Nosso destino era a casa de um velho chamado Ned Ludd. Velva primeiro perguntou por que ele tinha se tornado famoso:

“Virei o General Ludd porque um dia quebrei duas máquinas de tecelagem a marteladas.”

“Era tão ruim assim trabalhar?”

“A jornada em Leicester durava dezoito horas num ambiente escuro e abafado. O salário era uma merreca e você estava sujeito a castigos corporais. Quando quebrei as máquinas, isso inspirou outros trabalhadores e o pessoal saiu por aí arrebentando o que via pela frente.”

Gostaríamos de ter continuado a conversa, mas Ned Ludd estava bêbado e pegou no sono.

Velva consultou o computador de pulso e, por acaso, encontrou outra vez o nome Ned Ludd, só que dessa vez se referindo a um brasileiro do século XXI.

“Será que é uma homenagem ao velho?”

“Só há um jeito de saber. Prepare a Marreta (Máquina de Rápido Recuo ao Tempo Anterior).”

Da Leicester do século XVIII fomos parar na São Paulo da atualidade. Nosso entrevistado falava para um grupo de alunos. À saída, nos apresentamos como pesquisadores ambientais e ele concordou em nos receber. Era um cara tranqüilo; nem se importou com o fato de ainda estarmos com a aparência de Shakespeare e de Margareth Tatcher.

“A primeira coisa que quero saber”, Velva perguntou, “é por que o senhor, que se chama Leo Vinicius e é pós-graduado e tradutor, adotou como pseudônimo o nome do operário Ned Ludd?”

“A razão principal foi me resguardar, mas depois eu inventei uma boa desculpa, que é deixar as pessoas curiosas para saberem quem é o Ned Ludd. Aliás, não há provas de que um Ned Ludd tenha existido, mas, de toda forma, seu nome não significa um indivíduo, e sim os muitos trabalhadores que se envolveram no movimento que adotou o nome de luddita. Essa gente ficou conhecida por quebrar fábricas, mas na verdade eles percebiam que as tecnologias encarnavam valores e processos que os estavam destituindo de seu modo de vida e de sua autonomia.”

Velva se interessou pelo assunto: “E o senhor, hoje em dia, se opõe a algum símbolo do futuro?”

“Gostaria que as pessoas pensassem mais no quanto os carros destroem o ambiente, matam gente, roubam espaço público, pioram a qualidade de vida e amplificam desigualdades.”

“Mas o senhor acha possível viver sem eles?”

“Antes de comprar um modelo zero, prefiro que as pessoas se inspirem em movimentos como o Provos, na Holanda.”

“Que foi esse movimento?”

“Foi um movimento que contestou o automóvel de forma inteligente. As ‘bicicletas brancas’, que eles espalhavam pela cidade, foram um sucesso. Tanto que o que era um plano de loucos nos anos 60 virou política urbana três décadas depois em cidades como Rochelle (França), Aveiro (Portugal) e Helsink (Finlândia), onde bicicletas para uso público e gratuito foram postas em vários pontos da cidade.”

“E o senhor acha que existe mesmo o perigo de o trânsito travar de vez?”, perguntou Velva.

“Seria ótimo. Com os carros parados, o pedestre pode atravessar as pistas mais seguramente e, quem sabe?, as crianças poderiam voltar a brincar nas ruas, fazendo um esconde-esconde entre os carros.”

“Seria uma revolução!”

“Tem uma frase que diz: ‘Não há nada de revolucionário em relação a algo tão racional como a abolição do carro’.”

Aquela conversa me deixou angustiado. Então fiz a pergunta que me torturava:

“Devo destruir minha Vork a marteladas?”

“Não, mas lembre-se sempre: toda tecnologia propaga determinados valores e significações.”

Enquanto secava as lágrimas, aliviado, Velva voltou ao questionário:

“O senhor sabe que vai pegar um belo de um congestionamento quando sair daqui, não sabe?”

“Tudo bem. Vou colocar os fones do MP3 nos ouvidos e ficar ouvindo a música dos índios do Xingu?”

“Xingu? Onde fica isso?”

“Vocês nunca foram ao Parque Indígena do Xingu? Que diabo de pesquisadores ambientais vocês são?”

Tags:

Compartilhe por e-mail Compartilhe pelo Facebook Compartilhe pelo Twitter Compartilhe pelo Google Bookmarks Compartilhe pelo Google Buzz Compartilhe pelo del.icio.us Compartilhe pelo Orkut Compartilhe pelo Windows Live Assine o RSS

Deixe seu comentário!

Adicione seu comentário abaixo, ou trackback de seu próprio site. Você também pode assinar esses comentários via RSS.

O uso de Gravatar está habilitado. Para ter seu próprio avatar, por favor se registre em Gravatar.