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Relatório 27: o picareta verde

24 fevereiro 2011 1.485 visualizações Sem comentários

No dia seguinte, eu estava assistindo a uma corrida de espaçonaves quando Velva bateu à porta da Vork: “Vamos trabalhar, Kubno.”

“Pode esperar um pouco, tenente?” A corrida estava na última volta. Getgo estava a ponto de ser ultrapassado por Vitexus.

“Você não está ansioso para ver como funciona o processo de reciclagem do alumínio?”

“Claro, claro…”

“Então vamos logo! Isso solidificará a práxis do nosso texto.”

“Ok, corações, mas por que o alumínio mesmo?”, perguntei saindo de minha cabine.

“Pense nisso, Kubno: a energia economizada com a reciclagem de uma simples lata pode manter uma lâmpada de 100 watts ligada por vinte horas.”

“Impressionante…”

“Rápido, transforme-nos em terráqueos!”

Fiz como ela mandou e lá fomos nós observar o processo. Passo a passo. Assim vimos a coleta de latinhas na rua, feita por catadores pobres e maltratados; a limpeza do material e sua transformação em fardos; sua usinagem, quando os fardos são quebrados em pedaços menores; a triagem com o separador eletromagnético; e a picotagem e a passagem pela peneira vibratória, que retira terra, areia e outros resíduos.

Pelo meu computador de pulso, vi que o Brasil é quem mais recicla latinhas de alumínio no mundo, entre os países em que a atividade não é obrigatória por lei. Mais de 90% das latinhas são recicladas, o que dá mais de 40 milhões por dia. Se bem que isso não acontece exatamente pela consciência ecológica, e sim por conta dos catadores de rua.

Bem, estava tudo indo às mil maravilhas até que Velva falou:

“Kubno, olhe aquilo!”

“O carrinho de sorvete? Hummm, que delícia! Esse negócio de sorvete não é grande coisa, mas o carrinho me parece ótimo. Vamos comê-lo?

“Não isso, aquilo.”

Dirigi vinte de meus olhos mais para o lado e vi, então, meu primeiro crime ambiental: funcionários do espertinho que cuidava da peneira vibratória estavam lançando resíduos do alumínio num pequeno córrego da propriedade.

“Isso é um absurdo!”, Velva exclamou. “Vamos já falar com esse sujeito.”

O mutômetro nos transformou em fiscais ambientais, com direito a boné verde, crachá oficial e camisa feita com garrafas PET.

“Isso que o senhor está fazendo aqui é um atentado contra a vida natural. Exijo uma explicação”. Será que preciso anotar quem falou isso?

O dono da propriedade se defendeu: “Inspetora Velva da Silva, admito que poderia dar uma destinação mais ecologicamente correta ao material, mas, veja, isso é apenas um pequeno mal comparado ao enorme bem que a reciclagem do alumínio representa para o planeta.”

“Um pequeno mal cometido pelo senhor.”

“É verdade, mas tenho certeza de que poderemos nos entender.”

“Entender como?”

“Tornando as coisas mais fáceis para os dois lados.”

“De que diabo o senhor está falando.”

“Dinheiro”, ele sussurrou.

“Dinheiro? Que me importa sua droga de dinheiro se o senhor está corrompendo a cadeia da consciência ambiental com uma prática interesseira, egoísta e irresponsável! Saia já da minha frente!”

“A senhora é que está em minhas terras.”

“Muito bem, então quem vai sair da sua frente sou eu. Adeus!”

O homem achou aquilo tudo estranho, mas respirou aliviado. Não aplicamos nenhuma multa, afinal. Eu até gostaria de ter feito isso, mas não éramos fiscais de verdade nem tínhamos nenhum talonário conosco.

Velva, por outro lado, desistiu de acompanhar os outros processos da reciclagem. Não quis ver o separador pneumático, nem a armazenagem no forno que elimina tintas e vernizes, nem a fundição para formação da liga de alumínio e nem a transformação desse material em lingotes.

“Como uma pessoa pode se aproveitar do marketing verde e depois agir de forma destrutiva com a natureza? É possível proclamar uma ideia e se comportar de maneira oposta a ela.”

“Parece que isso não é um problema para eles.”

“Vamos embora, Kubno, quero conhecer empresas que realmente estejam comprometidas com a causa.”

Foi assim que fomos parar na loja dos Irmãos Brothers.

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