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Relatório 24: Nações punidas

18 fevereiro 2011 1.685 visualizações Sem comentários

Gostei de saber que iríamos ver uma conferência da ONU em Estocolmo, na Suécia. Só que Velva queria fazer isso no ano de 1979. Aí as coisas complicaram, porque detesto viagens no tempo. “Elas deixam meus quatro estômagos meio embrulhados”, argumentei. “E se fôssemos pegar um sol em Mercúrio ou andar de skate nos anéis de Saturno?”

A resposta de Velva foi dar um soco no meu estômago inferior direito.

“Pronto, já está embrulhado. Agora vamos.”

Ah, adoro mulheres rudes…

Logo estávamos usando a Marreta e recuando ao ano de 1979, mais precisamente à primeira conferência da Organização das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente. Assumimos a forma de ácaros e ficamos ali ouvindo engravatados falarem.

“Por que estamos aqui mesmo?”, perguntei para Velva.

“Para ver o nascimento de uma palavra.”

“?”

“Nesse encontro é que foi usado pela primeira vez o termo sustentabilidade.”

“?”

Meio impaciente, ela explicou: “O termo “sustentável” vem do latim sustentare, que significa sustentar; defender, conservar, cuidar. E foi uma palavra que virou moda depois desta conferência, que foi importante porque lançou as bases das ações ambientais em nível internacional.”

“Isso realmente merece atenção, Kubninho”, emendou Jopgus. “As grandes revoluções nascem das palavras e foi aqui que os humanos se deram conta de que o desenvolvimento não podia se dar à custa do extermínio da biodiversidade e do esgotamento dos ecossistemas naturais.”

“Hmm…”, respondi tentando fazer cara de interessado.

A palestra continuou e, para não bocejar, comecei a cantar “Poxa”, de Gilson de Souza. Eu gosto dessa música.

Velva, claro, não gostou da minha ideia: “Shhhh! Assim não consigo prestar atenção nas exposições.”

“Você ouviu, Kubnão. Obedeça.”

Fiquei um tempo calado, mas depois não agüentei e comecei de novo: “Poxa, como foi bacana de encontrar de novo…”

Fui interrompido com um soco na cabeça:

“Silêncio, Kubnão, é a hora das conclusões.”

E o pior é que era mesmo. Naquele momento, um sujeito magricela falava o seguinte: “É preciso fazer campanhas de esclarecimento e divulgar a causa da sustentabilidade, pois, do contrário, em vez de nações unidas nós formaremos a organização das nações punidas pelo esgotamento dos recursos naturais e suas conseqüências, como a fome e as mudanças climáticas.”

Velva não piscava nem um de seus cem olhos.

“Uau, que incrível! Viram como é importante ver o começo das coisas? Agora entendi melhor esta história de sustentabilidade.”

“Foi uma ideia brilhante vir a esta conferência, Velvinha.”

Velvinha conseguiu conter sua raiva por ser chamada de Velvinha e disse: “Obrigada. Mas agora estou interessada em descobrir como apareceu uma outra palavra: ecologia.”

“Ótima sugestão”, Jopgus falou. “Só que para isso teremos que voltar ainda mais no tempo.”

“Para mim isso não é problema. E para você, Kubno?”

“Acho que o Kubnão poderia ficar dessa vez”, Jopgus sugeriu. “Afinal ele é apenas um motorista.”

Apenas um motorista? “Apenas”? Sabe quantas vezes eu fui reprovado no exame de auto-escola antes de virar um motorista?

Jopgus apoiou uma de suas oito patas no casco de Velva (ainda éramos ácaros) e foi em frente: “Assim eu e você teremos melhores condições de gozar; digo, de enriquecer a pesquisa.”

“Você gostaria de ficar, Kubno?”, Velva perguntou.

“De jeito nenhum. Eu adoro viajar ao passado”, respondi.

Jopgus olhou para mim com cara de enfezado. As coisas estavam esquentando entre nós. E iriam ferver no dia seguinte.

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