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Relatório 21: o Etesão

11 fevereiro 2011 2.048 visualizações 3 comentários

“Se você quer escalar o pé de milho, sinta-se à vontade, Kubno. Eu ficarei por aqui.”

Fiz uma cara de “Hã?” e ela sorriu, apontando dois baldes cheios de espigas à nossa direita.

“Uh-lá-lá!”, exclamei. Realmente o caminho era bem mais curto por ali. Cada um de nós subiu por um balde e fomos nos esbaldar.

Não faça essa cara, eu tenho direito a inventar um trocadilho ruim de vez em quando.

Mas a partir daí aconteceu algo estranho. Enquanto Velva comia feito louca o milho de seu balde, eu mal conseguia roer um grão.

Isto só não foi a coisa mais estranha do dia porque, logo em seguida, aconteceu outra coisa estranha: uma explosão.

Fique tranquilo, não se tratava de nenhuma bomba. O bonitão aqui continuou bem. Pelo menos até ver quem saiu detrás da fumaça.

“Tenente Velva, cabo Kubno, eu sou o supervisor Jopgus.”

O supervisor estava em sua forma tralfamadoriana. Ele era bem mais jovem, alto e forte do que imaginávamos. E pior: tinha uma tromba. Eu nasci sem tromba e sei o quanto é duro pegar garotas sem isso.

Depois de acionar o mutômetro, ele nos fez readquirir a aparência normal. Não precisamos ligar o sistema de invisibilidade. Quem ia nos encontrar no meio daquele milharal?

“Fui mandado pela Copula para vistoriar seu… trabalho”, disse ele com uma pausa irônica.

Velva foi logo tratando de se explicar: “Estamos trabalhando o mais rápido que podemos, mas há muitas variantes a considerar, por exemplo…”

“Não me importo com seus problemas, apenas com as soluções. Já fizeram a pesquisa sobre a Zea mays?”

Como Velva ficou calada, eu me adiantei e disse: “Claro.”

“Então vocês já sabem que a Zea mays é o nome científico do milho, um cereal muito nutritivo para os humanos, e que sua a produção mundial já ultrapassa as 600 milhões de toneladas.”

“Naturalmente, senhor.”

“Ótimo. E vocês podem me explicar qual a diferença entre as espigas desses dois baldes?”

“Claro que poderíamos”, eu disse, “mas nunca seríamos tão eloquentes como o senhor, que tem tanta habilidade para explicar assuntos complexos.”

“Muito bem, fico feliz que tenham entendido que um dos baldes continha milho natural e o outro, milho transgênico.”

“Óbvio.”

“O milho transgênico, como vocês devem ter visto, tem vantagens e desvantagens: a vantagem principal é que ele pode ser enriquecido e se torna mais resistente às pragas.”

“Constatei isso na prática, senhor.”

“Por outro lado, a polinização do transgênico ocorre através do vento e há risco de ele ser transplantado para áreas longínquas. Se isso ocorrer, a chance de contaminação de uma lavoura tradicional e da destruição de ecossistemas naturais é grande.”

“Ficamos chocados ao descobrir isso, senhor.”

“Posso confessar uma coisa? O pessoal da Copula me enviou porque estavam desconfiando da seriedade de vocês. Mas, felizmente, o que ocorre é o contrário: vejo que estão fazendo um bom trabalho. Muito bem, sigamos o planejamento: qual o próximo assunto a ser investifado?”

Velva continuava calada, catatônica. Percebi que devia falar. Mas o quê? Olhei para o céu em busca de inspiração e vi uma folha de jornal voando.

“Coleta seletiva de papel, senhor!”

“Ótima escolha. Vamos já para a cidade. E prepare o mutômetro. A bela tenente Velva será uma catadora de papel. Nós dois seremos os seus cachorros.”

(perdeu o último relatório? acesse aqui.)

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3 comentários »

  • Fernando said:

    Clap, clap, clap…

    Excelentes propostas para o enriquecimento das artes visuais…

    São poucas as alternativas de boa qualidade de conteúdo e cuidado estético equilibrado, porém, de excelente bom gosto…

    Parabéns!

  • Fernando said:

    Em tempo: E com o tempero certo do bom humor…

  • Murilo said:

    “Posso confessar uma coisa? O pessoal da Copula me enviou porque estavam desconfiando da seriedade de vocês. Mas, felizmente, o que ocorre é o contrário: vejo que estão fazendo um bom trabalho. Muito bem, sigamos o planejamento: qual o próximo assunto a ser investifado?”.Senhores sinto muito lhes dizer, mas trocaram o “f” pelo “g”.
    Mudando de assunto, eu nunca imaginei que alimentos trângenicos pudessem trazer desvantagens para o meio ambiente, mas agora, eu sei e vou repassar essa informação para pessoas que se preucupam em deixar um planeta melhor de herança para as próximas gerações.

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