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Relatório 18: a Terra rica e a Té-rapada

4 fevereiro 2011 1.581 visualizações Sem comentários

Resolvemos, então, visitar a Noruega, o melhor país do mundo segundo o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU. Vimos gelos, casas bonitas e muitas cidades pequenas. Lá, a renda per capita atinge US$ 84 mil anuais. E a expectativa de vida para as mulheres é de 82 anos.

“Já cansei daqui. Agora vamos para o país com pior IDH do planeta, cabo Kubno”, ordenou Velva. Ah, adoro fêmeas mandonas…

Em poucos segundos chegamos ao Zimbábue. Lá as mulheres vivem em média apenas 43 anos. Quer saber quanto é a renda per capita? US$ 475 anuais.

“Tenho a impressão de que a desigualdade econômica entre os países gera uma grande desigualdade no consumo”, disse a tenente como se aquilo fosse uma dedução surpreendente.

Consultando o computador de pulso, ela descobriu um dado curioso: os 10% mais ricos do mundo são responsáveis por 59% do consumo no planeta, enquanto os 10% mais pobres respondem por 0,5%. Se isso não é diferença, preciso comprar um dicionário novo.

Pensei que ela pararia por ali. Doce ilusão.

“Você sabia que os países do hemisfério norte concentram 90% da riqueza mundial, enquanto os demais ficam apenas com 10%.”

“Não sabia.”

“Você sabia que a Índia, que tem 15% da população adulta da Terra, concentra apenas 1% das riquezas mundiais?”

“Não sabia.”

“Você sabia que, pelo nível de consumo de um norte-americano vale 13 brasileiros e 35 indianos?”

“Não sabia.”

“Você sabia que o Brasil é um dos países mais desiguais do mundo?”

“Não sabia.”

“Nem eu. Pois vamos voltar para lá. Quero conhecer São Caetano do Sul.”

Dei uma guinada de 180 graus na Vork. Em doze segundos (eu não quis engatar a quarta marcha), chegávamos ao nosso destino.

São Caetano é uma das cidades mais desenvolvidas do Brasil. E desenvolvimento, como temos visto, é sinônimo de consumo. Ali não faltavam shopping centers, concessionárias e lojas que vendem produtos de luxo. O índice de IDH é de 0,9524, maior que o da Noruega.

“Agora leve-nos até Jordão, no Acre”, ordenou a tenente. “Lá, o IDH é de 0,475”.

No segundo seguinte, com a nave no modo invisível, sobrevoávamos a tal cidade. Que tristeza….

Jordão tem 6 mil habitantes, que, na maioria, vivem assolados por doenças como a malária. E, se um doente quiser remédios, terá que encarar uma viagem de doze horas até Rio Branco. Também por causa da distância, os produtos chegam ali com preço elevado. Certamente, consumismo não é um problema para eles.

Velva estava indignada:

“Os humanos têm níveis de riqueza muito diferentes, cabo Kubno. Os países são desiguais, as cidades de um mesmo país são desiguais, e muitas vezes até os habitantes da mesma cidade são totalmente desiguais.”

“É verdade, tenente. O estranho é que os que têm menos não fazem muita coisa para mudar isso.”

“Não entendo a lógica terráquea, cabo.”

“Nem eu, tenente. Mas reparei que, mesmo tendo níveis econômicos diferentes, todos os casais fazem uma coisa interessante.”

“Como assim, cabo Kubno?”

“Sejam pobres ou ricos, os pares têm uma atividade que parece dar muito prazer.”

“Confesso que também reparei nisso…”

“É meio gosmento, mas deve ser bom.”

“Deve ser…”

“E se nós aproveitássemos estes corpos humanos para fazer aquilo?”

“Você acha mesmo que devemos realizar esta experiência, Kubno.”

“Claro!”

“Bem, se for em nome da ciência…”

“Então feche os olhos.”

Ela fechou os olhos, eu me aproximei e fiz a coisa.

“O que é isso?”, ela perguntou com cara de brava.

“Espremi uma de suas espinhas. Os casais humanos vivem espremendo as espinhas uns dos outros.”

“Você é uma besta, Kubno!”, ela gritou antes de me dar um tapa.

Não é fácil entender as fêmeas de Tralfamador.

Leia também o último relatório: O homem zero.

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