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Relatório 17: o homem zero

2 fevereiro 2011 1.605 visualizações Um comentário

Enquanto viajávamos à bordo da Vork, Velva contou-me o que a jovem havia lhe contado sobre Colin Beavan. Ele é um escritor que mora em New York City. A partir de novembro de 2006, Colin tomou uma decisão radical: passar um ano inteiro sem prejudicar o planeta com suas atividades.

“Você acha que ele pode ser um entrevistado interessante, cabo Kubno?”

“Hmm-hmm”, respondi. Mas no íntimo pensava: tomara que ele não venha com gracinhas para cima de Velva. Eu detestaria ter que matar outro humano.

Chegamos ao prédio, batemos palmas e, como o senhor Beavan não usava o interfone, tivemos que falar com o porteiro. Nós nos anunciamos como pesquisadores ambientais enviados pela Copula.

“Desculpe”, ele respondeu gritando da janela do nono andar, “mas vocês marcaram hora?”

Resolvi participar da conversa: “Somos do planeta Tralfamador, e não sabíamos que era preciso fazer isso.”

Velva me fuzilou com o olhar. Fuzilou mesmo. Se eu não tivesse me abaixado estaria com um furo na testa.

Mas tudo terminou bem: Colin Beavan nos deixou subir. Pelas escadas, claro.

Já no apartamento, ele nos contou que ao longo de um ano deixou de usar transportes poluentes, não gastou eletricidade, só produziu lixo para adubo, comeu alimentos produzidos num raio de 400 quilômetros da cidade e parou de usar qualquer tipo de papel.

“Inclusive o higiênico”, disse com um riso de canto de boca.

Se foi uma piada, ficamos boiando.

Colin continuou: “Abandonei a pasta de dentes por causa do flúor e troquei o xampu por bicarbonato de sódio.”

Velva pediu números. Ele os tinha na ponta da língua:

“Nesse ano eu economizei 2190 copos de plástico, 572 sacolas plásticas e 2184 fraldas descartáveis. Para minha filha, no caso.”

Ele também revelou que, com isso, tornou-se uma pessoa disponível para a família e os amigos.

“Ganhei uma coisa que não tinha: tempo.”

Ganhou mesmo. Tanto que inventou dez mandamentos para as pessoas viverem uma vida mais verde:

1 – “Pare de comer carne vermelha;

2 – Não compre mais garrafa de água;

3 – Não compre nada e não utilize eletricidade por um dia;

4 – Dê um dízimo do seu salário para uma ONG que cuide do meio-ambiente;

5 – Comprometa-se em não desperdiçar;

6 – Use a bicicleta ou ande a pé;

7 – Construa uma comunidade: se divertir com os amigos em casa basta;

8 – Leve estes princípios para o seu ambiente de trabalho;

9 – Em vez de ficar em frente à TV o dia todo, dedique um dia a serviços ambientalistas;

10 – Acredite que a sua forma de viver pode fazer diferença.”

Velva saiu da entrevista com um ar pensativo. Quando nos teletransportamos de volta para nossa nave, ela disse:

“Já entendi que as pessoas não aguentam esperar pelo prazer e preferem fazer dívidas a economizar. Também concluí que compram por impulso psicológico e que os preços se baseiam mais numa suposta aura do que no real valor do objeto. Agora ouvi propostas contra o consumismo, mas não sei se soluções individuais podem resolver o problema. Precisamos ter uma visão global do problema.”

“Ora, descanse a cabeça um pouco, tenente. Que tal se déssemos uma volta pelo planeta.”

“Grande ideia, cabo Kubno! Daremos um giro pelo planeta para investigar a questão. Ligue os motores da Vork. Vamos para a Noruega!”

Leia aqui o relatório 16 – Os vinte pelados, nós dois e o camburão

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Um comentário »

  • Murilo said:

    Acho que o mais de difícil de tudo é abolir o papel higiênico.

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