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Relatório 15: Sacolas, sacolas, sacolas

28 janeiro 2011 1.869 visualizações 2 comentários

Nem bem saímos da relojoaria e nos deparamos com um sujeito que carregava sacolas e olhava para as vitrines com aquele olhar com que nós, tralfamadorianos, costumamos olhar pra uma nebulosa.

De repente uma das sacolas se rompeu. Fomos ajudá-lo.

“Obrigado, queridos. Como vocês se chamam? Meu nome é Credson.”

“Sou Kubno dos Santos e esta é minha esposa…”

“Amiga”, a tenente interrompeu. “Apenas amiga. E olhe, se você quiser, Kubno poderá levar suas sacolas até o carro.”

“Uau, quanta gentileza! Vocês não são deste planeta!”, Credson exclamou, sem desconfiar que estava certo. “Mas, sem querer abusar, amigos, poderiam antes vir comigo até a perfumaria? Preciso comprar um óleo massageador paras unhas.”

Velva piscou para mim.

“Também te amo, baby”, murmurei em tralfamadoriano.

“Não é isso, estúpido”, ela respondeu. “Só quis dizer que encontramos o nosso consumista.”

Credson nos levou à loja onde ia comprar o óleo massageador de unhas. Mas ele não ficou nisso: levou também um creme decontrator de rugas, um xampu de tutano para fortalecer a raiz das sobrancelhas e um composto hidratante para os calcanhares com biosferas de colágeno.

Enquanto ele zanzava pela loja, Velva fez uma consulta no seu computador de pulso.

Ela descobriu que há duzentos anos os humanos passaram por uma tal de Revolução Industrial. Nessa fase de sua história, os processos de fabricação se desenvolveram, o que barateou os produtos e fez com que pessoas pobres pudessem comprá-los.

Aí nasceram duas coisas: a devastação da natureza e o consumismo.

Natureza devastada é o que mais temos encontrado por aqui. Quanto ao consumismo, a coisa cresceu tanto que até virou doença: ela se chama oneomania. Psicólogos tratam disso em seus consultórios.

“Veja, Kubno”, disse Velva, “seriam necessários US$ 19 bilhões para acabar com a fome no mundo, mas só com produtos de maquiagem se gasta US$ 18 bilhões. Imagine quanto não é desperdiçado com aparelhos eletrodomésticos, e celulares, e carros?”

Não há nada parecido com isso em Tralfamador. Quando nos cansamos de um produto, nós o devolvemos ao fabricante e ele se encarrega de produzir um item novo usando aquele mesmo material.

Ou seja, você banca o moderninho e a natureza não paga por isso.

Mas voltemos a Credson. Ele continuou percorrendo lojas e fazendo compras. Logo eu estava segurando tantas sacolas que lamentei não estar com meus tentáculos.

“Podemos ir embora?”, perguntei, ansioso por ouvir um sim.

“Sim, só mais um minuto”, ele respondeu.

O minuto durou uma hora.

Pensei que a maratona tinha acabado, mas então, depois da última compra, a moça do caixa disse: “Seu cartão está inoperante, senhor.”

“Tente esse aqui”, ele insistiu.

Estava cancelado. Ele sacou outro, e outro, e mais outro. Neca: todos os dezesseis tinham estourado o limite.

“O senhor vai ter que estar devolvendo a mercadoria, senhor.”

Achei que Credson se resignaria. Mas eu estava enganado. Agarrando a moça do caixa pelo pescoço, ele berrou:

“Se eu não puder sair daqui com as minhas coisas, eu prefiro ir para a cadeia! Eu preciso de minhas compras, eu preciso!”

Logo dois seguranças do shopping apareceram por ali e o dominaram sem problemas.

Credson só não foi preso porque um problema maior chamou a atenção dos dois brucutus: vinte pessoas nuas.

Explicarei melhor no próximo relatório.

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2 comentários »

  • Marcelo Matheus said:

    Olá!
    Parabéns pelo trabalho!
    Acho que analisar o problema do planeta Terra pela ótica extraterrestre é maravilhosa!
    Acredito que muitos dos leitores refletirão sobre como proceder para melhorar nossos costumes e nossa lei da ação e reação.
    Como a leitura é uma diversão prazerosa e nos faz viajar pelo universo da fantasia… que nesse caso é a pura realidade!!
    Existem três coisas que não dá pra ter finalização numa conversa! Política, futebol e religião. Gostaria de saber como nossos queridos ETs analisariam esse triângulo de muito preconceito e discussão!!!

    Mais uma vez agradeço por tão belo texto, e se depender desse pobre mortal, esses escritos chegarão em outro universo…..

    PS: Pergunte ao nossos amigos se conseguem ir para o futuro e me dizer se o Corinthians será campeão da Libertadores!!!!! rsrsrsrs

    Abraços….

  • Murilo said:

    “Veja, Kubno”, disse Velva, “seriam necessários US$ 19 bilhões para acabar com a fome no mundo, mas só com produtos de maquiagem se gasta US$ 18 bilhões. Imagine quanto não é desperdiçado com aparelhos eletrodomésticos, e celulares, e carros?”
    Nossa quando li isso, fiquei muito triste.Sem contar os gastos com materiais bélicos que os governos gastam usando impostos.Juntando os dois daria para acabar com a fome do planeta, duas vezes!!!
    Por que o ser humano é tão hipócrita a esse ponto?

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