Home » Relatório Extraterrestre

Relatório 14: O depois agora

26 janeiro 2011 1.372 visualizações Sem comentários

O relojoeiro ficou de olhos arregalados ao nos ver de volta: “Algum problema, senhores?”

“Roubaram meu relógio”, disparou Velva.

“Meu Deus!”, exclamou o homem. “Querem que chame a polícia?”

“Dane-se a polícia. Estou aqui para entender o comportamento humano e o senhor fez algo que me intrigou: o senhor nos vendeu um bem sem que lhe déssemos dinheiro em troca.”

Não sei se o homem esperava outro tipo de reação, mas pareceu ter ficado feliz ao ouvir aquilo: “Aceita uma água, um café?”

“Aceito uma boa explicação, mas duvido que você a tenha.”

Velva, Velva, sempre delicada.

“Veja, minha cara, o mundo vem sofrendo uma mudança de mentalidade nos últimos anos. Antigamente o importante era não ter dívidas. Hoje, o que importa é ter crédito para fazer novas dívidas.”

“Dívidas são uma coisa boa?”

O homem saiu do seu lado do balcão e levou Velva pela mão até um sofá: “Não, querida, dívidas são uma coisa muito ruim.”

“Então me explique, pelo amor do seu deus, por que diabo as pessoas se endividam?”

“Teremos que recuar alguns anos para entender isso, minha linda. A tradição cristã difundia uma ideia de adiamento do prazer.”

Velva olhou para mim, eu olhei para o teto. O relojoeiro continuou:

“Antes as pessoas viviam sem prazeres, na esperança de ter a recompensa no Paraíso. Sofra hoje, goze amanhã. Hoje elas não agüentam esperar. Goze hoje, pague amanhã. O futuro, que era o tempo de recompensa, passou a ser o tempo do pagamento. Queremos o paraíso agora, por isso compramos coisas como relógios. Aliás, você deveria comprar um novo para substituir o seu Daytona.”

“Espere!”, disse Velva retirando a mão do homem de seu joelho. “Você está me dizendo que os humanos pensam mais no presente que no futuro?”

“Isso mesmo. Pensar no futuro é coisa do passado. Afinal, quem pode garantir que estará vivo amanhã?”

Tive vontade de dizer: eu. Um tralfamadoriano nunca morre. Mas isso apenas atrasaria a conversa.

Velva permaneceu um tempo sem se mover. O relojoeiro não. Começou a passar a palma da mão pelos ombros da tenente. E continuou falando, claro:

“Não há porque você ficar confusa com isso, coração. O consumismo é uma ideologia muito eficiente. Tão eficiente como o comércio das drogas: logo que o efeito de satisfação pela compra acaba e as pessoas ficam endoidecidas e sacam seus cartões de crédito de novo. Com isso as fábricas ficam em permanente atividade, o que gera emprego e renda.”

“Renda que eles gastam comprando mais quinquilharias inúteis e voltando a se endividar. Isso é lamentável”, comentei.

“Não para quem vende as quinquilharias”, retrucou o relojoeiro.

Enquanto anotava tudo num papel, Velva falou comigo em tralfamadoriano: “Não é à toa que eles estão devastando o planeta, cabo Kubno. Para atingir um nível de produção que abasteça essa carência interminável, eles esgotam suas reservas naturais.”

O relojoeiro, é claro, não entendeu nossa conversa. Mas não perdeu tempo. Pelo contrário, começou a acariciar os cabelos de Velva. Um tralfamadoriano jamais faria algo tão grotesco, mas para minha surpresa o corpo humano da tenente começou a ficar excitado.

Era o que faltava: um terráqueo conseguir o que eu vinha tentando há semanas.

Não tive dúvidas quanto ao que fazer: saquei a pistola e nem precisei usar a mira de alta precisão.

“Você desintegrou o relojoeiro, Kubno?”

“Ops…”

“Bem, depois alguém varre essa poeira. Agora vamos sair daqui. Preciso encontrar um consumista.”

“Vai ser moleza encontrar um. Os shoppings são o habitat natural deles.”

Tags:

Compartilhe por e-mail Compartilhe pelo Facebook Compartilhe pelo Twitter Compartilhe pelo Google Bookmarks Compartilhe pelo Google Buzz Compartilhe pelo del.icio.us Compartilhe pelo Orkut Compartilhe pelo Windows Live Assine o RSS

Deixe seu comentário!

Adicione seu comentário abaixo, ou trackback de seu próprio site. Você também pode assinar esses comentários via RSS.

O uso de Gravatar está habilitado. Para ter seu próprio avatar, por favor se registre em Gravatar.