Home » Relatório Extraterrestre

Relatório 13: Santos e Silvas

24 janeiro 2011 1.210 visualizações Sem comentários

Liguei o conversor de matéria e assumimos nossas formas humanas. No começo foi desagradável. Não que eu não gostasse de ter o corpo do tal Jô Soares e a cabeça do tal Tiririca. Mas sentia falta de algumas coisas. Velva pensava o mesmo:

“Como eles conseguem viver sem antenas? E esses dentinhos de nada! Que falta dos meus tentáculos. Que estranho andar apenas sobre dois pés!”

A tenente escolheu o corpo da jogadora de vôlei Gamova, que tem 2,02 metros, e a fisionomia de uma atriz chamada Whoopi Goldberg. Ela tinha metade do meu diâmetro e o dobro da minha altura.

“Será que ficamos bonitos, Kubno?”

“De uma coisa eu sei, tenente: ninguém tira os olhos de nós.”

Adotamos os nomes de Velva da Silva e Kubno dos Santos. Esses são os sobrenomes mais comuns no Brasil. Os Silva representam 9,9 % da população; os Santos, 6,1 %. Por via das dúvidas, também fizemos documentos e cartões de crédito com nossos nomes.

Depois de andar um pouco à toa, paramos diante de um shopping center. Velva queria entrar numa relojoaria.

“Por quê, tenente?”, perguntei, olhando para uma loja de brinquedos.

“Os humanos regulam sua vida com base numa ideia de duração chamada tempo, e o relógio é o instrumento que mede isso.”

Entrando na loja, nos deparamos com centenas de marcadores de tempo. Centenas mesmo. O que eu mais gostei tinha um passarinho saindo de tempos em tempos por uma janela. Ele dizia: “Cuco! Cuco!”. Com um daqueles no pulso, eu ia fazer o maior sucesso em Tralfamador.

“Quanto custa esse?”, perguntou Velva, segurando um relógio qualquer pela correia.

“Duzentos reais”, o dono respondeu fazendo cara de nojo. “Mas eu não o levaria se fosse a senhora.”

“Por quê?”

“É nacional.”

Eu e a tenente trocamos um olhar abobado. Resolvi intervir.

“Ele marca horas, não marca?”

“Seu celular marca horas, o sol marca horas. A questão não é essa, a questão é o que esse relógio diz a seu respeito.”

“Um relógio não diz apenas as horas?”, perguntei.

O vendedor balançou a cabeça de um lado para o outro, como se eu tivesse falado uma grande bobagem. Depois explicou: “Se os senhores usarem um relógio desses, as pessoas vão pensar que vocês são dois pobretões. Seria terrível, pois qualquer um que olhe para os senhores vê que se trata de um casal bonito e charmoso.”

“Não somos um casal”, disse Velva.

“Que bom”, falou o relojoeiro. Sempre sorrindo, ele apanhou na prateleira um relógio dourado:

“Esse Rolex custa seis mil reais. É um relógio que todos querem ter, mas nem todos podem. Pensem bem: se vocês levarem o Rolex, terão o que todos querem ter e serão invejados por isso. Pode haver coisa melhor? Hã?”

Depois de dizer aquilo, ele pôs os olhos em mim e ficou erguendo as sobrancelhas. Eu jamais levaria aquilo. Nós, tralfamadorianos, consideramos o tom dourado cafona.

O homem, porém, não desistiu. Apanhou outro relógio e o foi colocando no pulso de Velva:

“Para a madame eu não recomendaria nada inferior a esse Daytona Paul Newman, que custa cinquenta e cinco mil reais. Que tal? Hã?”

“Não temos dinheiro agora, só este cartão”, Velva argumentou mostrando o cartão.

“Pois isso basta. Leve hoje, pague amanhã. Este é meu lema.”

“Não temos que lhe dar papel-moeda quando adquirimos alguma coisa?”

“Não”, disse ele tomando o cartão das mãos de Velva. “Vou abrir um crediário para vocês. Pronto. Está feito. Sejam muito felizes e até logo.”

Velva ficou pouco tempo com seu Daytona. Logo na esquina, um garoto o arrancou de seu pulso e fugiu.

“Quer que o destrua com um tiro de raios gama?”, perguntei.

“Não”, ela respondeu. “Isso não me incomoda.”

O que a incomodava eram aquelas coisas que tínhamos acabado de ouvir.

“Vamos voltar à loja, Kubno. Tenho uma pergunta a fazer para aquele relojoeiro.”

Tags:

Compartilhe por e-mail Compartilhe pelo Facebook Compartilhe pelo Twitter Compartilhe pelo Google Bookmarks Compartilhe pelo Google Buzz Compartilhe pelo del.icio.us Compartilhe pelo Orkut Compartilhe pelo Windows Live Assine o RSS

Deixe seu comentário!

Adicione seu comentário abaixo, ou trackback de seu próprio site. Você também pode assinar esses comentários via RSS.

O uso de Gravatar está habilitado. Para ter seu próprio avatar, por favor se registre em Gravatar.