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Relatório 11: A grande maçã

19 janeiro 2011 2.096 visualizações Um comentário

Escrevi “Nova Iorque” no GPS da nave  e apertei o enter. A máquina indicou o endereço:

latitude 06º44’02″ sul e 44º02’40″ oeste. Ah, o que seria de nós, pilotos interplanetários, sem o GPS?

Em três segundos atravessamos o Oceano Atlântico e estávamos sobre a tal cidade. Demoramos tanto porque decidi ir mais devagar para apreciar a paisagem.

Acionamos nosso campo de invisibilidade (detesto quando Velva fica invisível, porque deixo de ver seus belos olhos, suas belas orelhas, seus belos narizes, suas belas bocas) e nos teleportamos para perto da estátua de uma mulher que tinha uma coroa de espetos na cabeça e erguia uma tocha com a mão direita.

“Veja, Kubno, essa deve ser é a famosa Estátua da Liberdade. Pensei que ela fosse maior.”

“Ãrrã”, comentei sem entusiasmo. Confesso que nunca fui um sujeito culto, desses que gostam de estátuas, quadros e filmes do planeta Sirap. Na verdade só me interesso por uma coisa: espaçonaves e mulheres.

Escolhemos um cidadão para analisar e nos pusemos a segui-lo. Segundo nossa análise telepática, seu nome era Kennedy Roosevelt. Ele trabalhava na Prefeitura, mas o setor público de Nova Iorque estava em greve – tinham cortado a cota de café da repartição.

Sem ter o que fazer naquele dia, Kennedy Roosevelt resolveu ir para uma concessionária de veículos.

“Para que ele precisa de um carro numa cidade tão minúscula como essa?”, Velva perguntou.

“Para pegar garotas”, respondi.

Depois de me mandar ao rabo do cometa por ter dito um raciocínio primitivo, machista e estúpido, Velva fez uma pesquisa no seu google de pulso e descobriu que setenta milhões de veículos tinham sido fabricados no planeta em 2010.

“Quantos carros eles terão que fabricar agora para bater essa marca? E quantos carros cabem nas estradas, afinal?”

“Mas nosso amigo vai comprar o carro em suaves prestações”, eu falei, “pelo menos vai ser um negócio vantajoso.”

“Não para a natureza. Você acha por acaso que o carro dele tem controle de poluentes, que aceita biocombustível? Essa lata velha só servirá para empestar o ar com monóxido de carbono.”

Era um argumento.

Mas o pior estava por vir. Quando entramos na casa de Kennedy Roosevelt, vimos que ele tinha outros três carros.

E não era só isso. Também vimos que, além dos inevitáveis geladeira, freezer, microondas, fogão, barbeador, computador, MP3 e aparelho de tevê de última geração, Kennedy Roosevelt possuía uma máquina de fazer iogurte, uma torradeira, um massageador elétrico dos pés, uma escova de dentes movida a pilhas, um aparelho de ar condicionado que exalava aroma de baunilha e um colchão elétrico que imitava movimentos de ondulação do mar.

Velva ficou tão chocada com aquela obsessão que resolveu produzir um relatório na hora. Soltando lava pelas ventas (e isto não é metáfora), ela escreveu que o modelo de desenvolvimento de Nova Iorque era expansionista, predatório, descontrolado e que ia levar à destruição do planeta. Para piorar, segundo suas pesquisas Nova Iorque exportava seu modelo de consumo para o mundo inteiro, o que punha o planeta em perigo.

“Que você achou, Kubno?”

“Ficou tão bom que você devia classificar o relatório como AIK e enviá-lo agora mesmo para nossos superiores.”

Quando alguém classifica um relatório como AIK, os supervisores têm que parar o que estão fazendo e dar um encaminhamento urgente.

O parecer de Tralfamador chegou no minuto seguinte:

“Agradeço por ter interrompido minhas primeiras férias em cem anos tralfamadorianos, tenente Velva, mas devo observar que seu relatório tem uma incorreção fundamental: você está em Nova Iorque, no Maranhão, e não em New York, nos Estados Unidos. Uma advertência será incluída em sua ficha. Assinado: supervisor Jopgus.”

Quando ela sacou a pistola, eu já estava longe.

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Um comentário »

  • Murilo said:

    É dessa você pensou e correu rápido amigo!

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