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Eduardo Viveiros por Torero

18 janeiro 2011 1.748 visualizações Sem comentários

Hoje, deixamos registrado o encontro do roteirista Torero com o consultor Eduardo Viveiros, para o documentário Cultura.

Por José Roberto Torero.

Saindo da casa do professor Cortella tivemos uma pequena pausa para o almoço e, em seguida, por volta das 16h, fomos até a casa da Ana Dip, onde havia café e biscoitos de todos os tipos.

Ali fizemos a última entrevista da série, com o antropólogo Eduardo Viveiros. A diretora Eliane Caffé também participou da conversa, que, apenas por registro, foi a mais extensa de todas.

Nessa altura já não tínhamos mais esperanças de encontrar uma amarração definitiva para os documentários. Isso viria na feitura dos roteiros. Ficamos então mais relaxados e nos ocupamos simplesmente em ouvir a exposição. Isto foi conveniente porque, como em todo final de processo, estávamos cansados.

O professor Viveiros começou sua apresentação sobre a percepção desenvolvida em nossa civilização, segundo a qual seríamos uma espécie superior às demais.

Não é difícil encontrar as origens desse modo de pensar na religião cristã, por exemplo. Em um só dia Javé teria criado todos os animais, mas teria reservado um dia especial para moldar no barro um ser à sua imagem e semelhança.

Uma das implicações disso foi a aceitação do fato de que, apesar de depender do universo hostil composto por rios e florestas, pelo solo e pelos animais, o homem estaria de alguma maneira apartado e acima dele.

Admitida a dissociação, tornou-se aceitável pensar que o mundo físico existe apenas para ser dominado e prover nossas necessidades.

O momento em que essa visão de mundo se manifestou de modo mais intenso foi aquele que se sucedeu à Revolução Industrial. Da dependência original e da convivência mais ou menos pacífica o homem passou agir como desbravador. Teve início, então, um processo de constante agressão ao meio ambiente, criando nas cidades (onde hoje vivem 53% dos habitantes do mundo), uma espécie de universo isolado

Ao mesmo tempo em que isso se dava, no entanto, o conceito de superioridade sofria o que o professor Viveiros chamou de “feridas narcísicas”. A confirmação de que a Terra não é o centro do universo e a teoria de que o homem é apenas mais uma entre muitas espécies (algumas delas muito mais resistentes, como as bactérias), abriu caminho para um novo entendimento dessa relação com o mundo físico.

Já no século XX, o discurso socioambiental foi mais uma dessas feridas. Ele não só mostrou ao homem os efeitos danosos de sua ação, como indicou que a continuidade dessa operação poderia levar ao desaparecimento da espécie.

Hoje boa parte das pessoas sabe o que precisa ser feito, mas há pelo menos um impasse em torno dessa questão: fomos formados com valores antropocêntricos e desse sistema insustentável extraímos conforto, tecnologia, satisfação estética e uma série de comodidades. Fizemos essa pergunta para vários palestrantes e com o professor Viveiros não foi diferente.

Da mesma maneira que na palestra de Paulo Vaz, ele apontou para a necessidade de uma mudança de valores, a formação de uma mentalidade capaz de combater a fábrica de desejos do capitalismo, que, segundo ele “tira o que a pessoa tem e faz desejar o que não tem.”

Se fosse o caso de fazer uma categorização, a palestra do professor Viveiros se situou mais próxima às de Rogério Costa e Isis de Palma, com opção por uma exposição teórica sólida. Outras, como as de Marcos Egídio e a de Beto Rocha e Marcio Santili, foram bastante apoiadas pelos exemplos.

Essas duas modalidades formaram a base sobre a qual deveremos nos apoiar a partir de agora. Que roteiros sairão daí é algo que ainda não fazemos ideia.

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