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Relatório 10: o reino subterrâneo

17 janeiro 2011 2.096 visualizações 2 comentários

Era noite.

Liguei a espaçonave e lentamente começamos a flutuar.

Depois de subirmos alguns quilômetros, vimos a imensa cidade de São Paulo abaixo de nós, com suas ruas, suas casas, seus prédios e seus milhões de janelas com luzes acesas.

Fiquei imaginando que cada uma daquelas luzes era um humano, um humano com uma história interessante, como uma vida única, e confesso que até senti certa simpatia pelos terráqueos. Tanto que comecei a pensar numa poesia:

“Povo desta bela Terra,/ de mares, deserto e serra,/ como podeis ser tão gentis,/ e, ao mesmo tempo, tão imbecis?”

Não continuei em meus devaneios porque fui despertado por um tapa na cabeça dado pelo tentáculo da tenente Velva: “Está sonhando? Acelere, cabo Kubno!”

Em menos de um segundo a Vork nos deixava no norte de Portugal. Velva mal cabia em si de euforia:

“Li vários artigos a respeito desse povo, Kubno. Se metade do que estava escrito for verdade, finalmente teremos algo positivo para relatar.”

Mudamos nossa forma para combinar com a deles e nos teleportamos.

Fomos recebidos por uma espécie de presidente. Presidente não, desculpem, rainha: o regime dos caras é monárquico.

“Salve, estranhos!”, ela exclamou. “Espero que se sintam bem em nossa pequena cidade.”

Pequena cidade era modéstia dela. Falávamos de mais de seis mil quilômetros, que avançava por países como Espanha, França e Itália. Era a maior cidade do mundo! Velva iniciou seu questionário: “Pelo que vejo, a senhora representa uma numerosa comunidade.”

“Nunca fizemos um censo, mas são bilhões de indivíduos, sem dúvida.”

“É impressionante como a ordem impera por aqui.”

“Temos uma vida pacífica: acordamos, trabalhamos duro e nos dedicamos ao bem comum.”

“Também não percebo brigas ou problemas de convivência.”

“Somos pequenos e frágeis; não podemos nos dar a esse luxo.”

“Veja, Kubno, como eles resolvem eficientemente problemas de moradia, escoamento de águas, ventilação, defesa, deslocamento, transporte e conservação de alimentos.”

“Para chegar a um resultado parecido, os humanos levariam séculos.”

“E haveria superfaturamento, corrupção e poluição. É ridículo eles se considerarem superiores.”

“É verdade”, disse a rainha das formigas. Ops! Eu não havia dito que estávamos num formigueiro? Desculpe, falha minha. Então digo agora: estávamos no maior formigueiro conhecido do mundo, formado por exemplares da espécie Linepithema humile, originária da Argentina e introduzida na Europa há cerca de 80 anos, junto com plantas que foram importadas.

A rainha continuou:

“O homem pensa que é o principal ser do planeta, mas só aqui no meu reino temos mais habitantes do que eles no planeta inteiro. Pensa que seu cérebro é o que há de melhor, mas o do golfinho é mais pesado que o dele. Pensa que tem uma longa vida, mas as tartarugas vivem mais tempo. Pensam que são atléticos, mas o canguru pula mais de 9 metros de distância e o recorde mundial humano é de 8 metros e 95. Pensam que são rápidos, mas um guepardo pode passar de 100 km/h e o Usain Bolt não chega nem à metade. E o pior, pensam que são sexualmente vigorosos, mas os seus primos, os macacos bonobos, copulam até 12 vezes por dia.”

“Doze, é?”, perguntei com inveja. “Pois para mim bastaria uma”, disse piscando para Velva com meu olho do umbigo.

Levei uma tentaculada tão forte que só acordei na espaçonave.

“Você é um idiota, Kubno.”

“Desculpe, tenente.”

“Cale-se. Agora pretendo fazer um estudo comparativo. Leve-me para uma das maiores cidade do planeta: Nova Iorque.”

“Oba! Broadway e compras!”, exclamei. Se eu soubesse o que estava por vir, não teria ficado tão contente.

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2 comentários »

  • Hebert said:

    Muito bom…. Hahaah curtiii

  • Murilo said:

    Eu fiquei de olhos arregalados, no trecho em que dizia trabalharmos todos para o bem comum.Isso não é coisa da maioria dos humanos, quem dira bilhões de indivíduos.

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