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Relatório 9: Um dia de entrevistas

14 janeiro 2011 2.110 visualizações Sem comentários

Nosso encontro com o tratador dos animais do Zoológico foi perturbador. Entre outras coisas, ele nos disse que os humanos acreditam que um ser divino os fez superiores às outras formas de vida.

“Pegue a Marreta, Kubno. Temos que voltar uns séculos para entender essa perspectiva.”

“Ok, tenente.”

Sei que já expliquei isso, mas não custa repetir. Marreta é a sigla de quina de Rápido REcuo ao Tempo Anterior.

Primeiro fomos parar na Idade Média, lá pelo século VI. Um padre rezava uma missa para um grupo de camponeses. Em latim, ele dizia:

“Deus fez o homem do barro depois de ter feitos os rios, as florestas e os animais. Por que reservou um dia inteiro para o homem? Porque o homem é um ser mais sublime, mais inteligente e mais capaz do que os outros animais. Porque só ele pode entender a Escritura e só ele pode seguir pelos caminhos da graça. Essa é uma verdade eterna: é assim agora e assim continuará a ser daqui a mil anos.”

Eu estava roncando pesadamente quando Velva me deu um cutucão com seu chifre. Velva é inteligente e disciplinada. Ela entendeu os efeitos daquela pregação sobre a mente humana. Resumindo era o seguinte: somos os donos dessa joça, podemos fazer o que bem entendermos das matas e dos bichos.

“Vamos avançar mil anos”, ela disse. “A menos que você esteja gostando do sermão.”

“Já estou acionando a Marreta”.

Um segundo e mil anos depois estávamos numa gráfica em Frauenburg, onde um sujeito imprimia seu livro. O sujeito se chamava Nicolau Copérnico e o livro, “De revolutionibus orbium coelestium”.

Vou ser sincero: jamais compraria aquele livro. Por que gastar dinheiro para ler obviedades do tipo: “é a Terra gira em torno do Sol e não o contrário?”

“Mas isso é um pensamento revolucionário, Kubno.”

“Jura, Velveca?”

Depois de me dar uma pancada na antena, ela continuou: “Nessa época ainda se pensa que a Terra é o centro do Universo. Copérnico está sendo muito ousado.”

Soltei uma gargalhada. Dizer que a Terra era o centro do universo era o mesmo que dizer que Piraporinha era a cidade mais importante do planeta.

“Temos que ver se algo mudou quatrocentos anos depois.”, ela disse.

Duas pancadas na cabeça depois, a Marreta nos levou a 1859, mais exatamente à casa de um inglês chamado Charles Robert Darwin.

Assim como Copérnico, ele também escreveu um livro. Seu nome era “Sobre a origem das espécies”. Darwin era um sujeito de mente aberta, tão aberta que nos recebeu em sua casa em Downe.

“O senhor tem sido importunado pela igreja, como o foram seus antecessores?”, perguntou Velva.

“Um pouco, sem dúvida. A ideia de que o homem provém de um ancestral comum e que foi se desenvolvendo através da seleção natural ainda soa como blasfêmia.”

“O que é uma blasfêmia?”

“É uma ofensa a Deus.”

“Por que dizer isso seria uma ofensa a Deus?”

“Por que, de certa forma, elimina a distinção entre homens, animais e plantas. O argumento que uso para explicar a evolução dá a entender que o homem é um animal igual aos outros, e não um ser criado por um Pai Celeste e que ocupa um lugar de proeminência no universo.”

Velva concluiu que a visão antropocêntrica, ou seja, aquela que via o homem como centro do mundo, foi dominante por séculos. Ela ajudava a explicar o fato de eles desprezarem os outros seres vivos.

“Mas o livro de Darwin não foi publicado no século dezenove?”, protestei.

“Foi.”

“Cento e cinqüenta anos não é tempo suficiente para perceber um erro e mudar de atitude?”

“Parece que não.”

“Os homens continuam pisando nos outros seres como se eles fossem formigas. Com todo o respeito às formigas, é claro.”

“Hum…, formigas…”, disse Velva coçando a cabeça com um tentáculo. “Você me deu uma idéia, Cabo Kubno.”

“Você me dá várias, tenente Velva…”, falei agitando as asas languidamente.

“Sabe para onde quero ir?”

“Para o quarto?”

“Não! Para a Europa. Lá falarei com um grande líder. Ligue a espaçonave!”

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