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Relatório 6: – O dia em que fomos presos

7 janeiro 2011 3.157 visualizações Um comentário
“Pois bem, quem é este tal Santana?”, eu perguntei depois que a tenente Velva parou de rir. Depois de enxugar suas lágrimas verdes, ela explicou:
“Procurei no computador um sujeito que tivesse a média de idade, peso, tamanho e consumo de um brasileiro, e esse tal de Santana se encaixa em tudo. Ele tem 29,8 anos, pesa 66 quilos e meio, mede 1,70 m, possui dois filhos, ganha US$ 8.020,00
por ano, toma 1,64 xícaras de café por dia, e come 75 quilos de arroz e 29 quilos de pão por ano. Ah, e, para ajudar a descer tudo isso, bebe 86 litros de cerveja.”
“Humpf… Se você já sabe tanto sobre ele, por que precisamos segui-lo?”, perguntei com certo despeito.
“Porque precisamos entender como ele pensa, e isso é bem mais complicado.”
No dia seguinte nos transformamos em moscas para segui-lo. Acho que, se os terráqueos soubessem deste nosso poder de
mutação, morreriam de inveja. E toda a população pareceria a Gisele Bundchen e o Brad Pitt.
Bem, na manhã seguinte pegamos o ônibus com o senhor Santana. Foram duas horas de solavancos até chegarmos ao trabalho dele, que é uma coisa chamada banco. Pelo que entendi, os humanos pagam o banco para que este guarde o dinheiro deles.
Não deveria ser o contrário? Jamais vou entender a lógica terráquea.
Lá no banco, o senhor Santana foi para trás de uma baia. Ela devia ter um metro quadrado. Ali passou o dia fazendo contas e lidando com clientes que estavam irritados por causa do tempo que perdiam na fila.
Depois Santana foi a um restaurante, onde pegou uma fila para escolher comida, outra para pesá-la e depois uma terceira para pagá-la.
“Quanto tempo ele perde num dia…”, comentou Velva com pena.
“E pensar que se ele estivesse em Tralfamador, nem teria precisado sair de casa”, eu disse.
“É verdade, Kubno, trabalhamos com comunicação telepática e isso nos deixa tempo de sobra para a diversão.”
“Eles não têm comunicação telepática, mas já possuem internet.”
“Isso é um bom começo. É sinal de que estão entrando na sociedade do conhecimento.”
Disfarçadamente dei uma consultada no meu google de pulso e depois falei com ar de inteligente:
“Aliás, parece que já há algumas cidades totalmente cobertas por wi-fi na Terra.
Em Amsterdam, todos os moradores têm acesso grátis à internet desde 2004. E, no Brasil, isso já acontece em algumas cidades pequenas, como Sud Menucci, Parintins e
“Puxa, cabo Kubno, dessa vez você me surpreendeu. Não pensei que você fosse tão bem informado.”
Depois de outra olhada no meu google de pulso, botei a pata no queixo, que nem fazem os escritores na contracapa dos livros em Tralfamador, e disse:
“Falando em internet, tenente Velva, você sabia que o Brasil é o quinto país com o maior número de conexões? Em dezembro de 2009 eram 67,5 milhões de internautas no país.”
“Uau!”, ela disse arregalando todos aqueles olhos de mosca.
Eu continuei: “E a internet, além de facilitar a comunicação, a difusão de conhecimento e os negócios, também pode servir como estopim para uma democracia mais participativa, com todo mundo participando das decisões.”
“Incrível, cabo Kubno! Quanta sabedoria! Se eu não o conhecesse, diria que você só sabe isso porque deu uma olhada no seu google de pulso.”
“É, bem…, para falar a verdade…”
“Deixa para lá, foi uma boa tentativa. Agora vamos mudar de forma, que não agüento mais ser uma mosca.”
Depois de olhar um outdoor, sugeri:
“Podemos virar dois pandas? Eles são bonitinhos e parece que os humanos gostam muito deles.”
“Ok”, ela respondeu.
Apertamos nosso mutômetro e nos transformamos em dois belos e fofos pandas. Fomos presos antes de chegar à outra esquina.

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Um comentário »

  • sindia said:

    Kubno, como vcs fazem para mudar de forma? Por que o nome do planeta de vocês é Tralfamador? Vocês, por um acaso, são os seres feitos de energia do Kurt Vonnegut, que tentam colonizar o universo e descobrem que a melhor forma de viajar as grandes distâncias necessárias para essa tarefa é se transformar em germe? Hum, acho que começo a entender vocês.
    Mas se for isso, de acordo com a Hocus-pocus, vocês são os responsáveis pelo progresso humano, vocês trabalharam para incitar o avanço tecnológico, os preconceitos e a guerra com a finalidade criar germes cada vez mais capazes de enfrentar viagens interestelares. Não entendi, então, por que vocês criticam tanto o nosso modo de viver? Não é esse modo que beneficia vocês?

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