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Beto Ricardo por Torero

7 janeiro 2011 1.721 visualizações Sem comentários

Por José Roberto Torero

A terceira entrevista da série de oito foi realizada no Instituto Sociambiental – ISA -, na avenida Higienópolis.

Higienópolis, guarde esse nome.

Deixamos o carro num estacionamento da avenida Angélica e começamos a procurar pelo ISA. Não achamos. Talvez isso tenha se devido ao fato de que a avenida Higienópolis é um local, e a Angélica, outro. Depois de mais desencontros, chegamos a pé à sede do ISA. Chovia, claro.

A conversa era para ser com o antropólogo Beto Ricardo, mas lá também estava ex-deputado constituinte e indigenista Marcio Santili. Foi uma boa surpresa, porque queríamos que o diálogo transcorresse de forma espontânea, e o fato de sermos em cinco na mesa favorecia a informalidade.

Essa entrevista também nos deu um alívio em relação ao futuro do trabalho, uma vez que nos foram apresentados vários casos. É um vício dos roteiristas: pensar na transmissão de ideias através de histórias.

Marcio Santili citou episódios curiosos a respeito da luta do movimento socioambiental na época da Assembléia Constituinte. Nunca é demais lembrar que naquele tempo a ameaça das mudanças climáticas não era tão palpável e as propostas que apontavam uma responsabilidade ambiental ainda eram identificados como discurso idealista. Mesmo assim várias vitórias foram obtidas, estabelecendo as bases legais para a luta dos anos seguintes.

O professor Beto Ricardo fez uma grave denúncia à ameaça sofrida pelo Parque Nacional do Xingu, uma reserva indígena de 2,8 milhões de hectares cercada por fazendas voltadas para a pecuária e para o plantio de soja. Como tudo que se refere ao meio ambiente, não há como separar uma coisa da outra. Assim, uma área supostamente protegida dos males da civilização, começa a sofrer os efeitos malignos dessa convivência, como os desmatamentos, as queimadas a poluição e o assoreamento dos rios.

Mas a ênfase do discurso não era negativista. Pelo contrário, deu-se destaque à luta de convencimento dos fazendeiros, para que atentassem ao processo de destruição. Muitos deles se sensibilizaram e passaram a colaborar com o processo de recuperação das matas, e um deles, inclusive, foi indicado para dar entrevistas.

Esse exemplo de negociação com o “inimigo” chamou nossa atenção, pois o raciocínio baseado em clichês não nos levava a crer que o movimento tivesse chegado a esse grau de pragmatismo.

A obra da usina hidrelétrica de Belo Monte, que poderá ser realizada no Parque do Xingu, é considerada o alvo de um futuro embate político entre os defensores da ecologia e os desenvolvimentistas.

Para Beto Ricardo e Santili a pressa em iniciar uma obra do Programa de Aceleração do Crescimento – PAC -, esconde o fato de que os estudos ambientais realizados até agora não foram corretamente dimensionados.

Lideranças indígenas da região também contestam o fato de que não foram consultados em uma decisão que vai afetas suas vidas.

Essa contribuição também foi importante, pois tem o valor de uma pauta jornalística. Podemos basear parte do roteiro nesse embate, uma vez que os desdobramentos do caso se darão ao longo deste ano de 2010.

Falando um pouco mais de poder, tanto Ricardo quanto Santili deram especial destaque à experiência vivida no Acre. Não era para menos. Ali viveu o líder sindical Chico Mendes, um dos pioneiros na denúncia da agressão às florestas por parte dos seringueiros.

Depois de seu assassinato, em 1988, teve curso uma luta política que levou ao poder grupos que modificaram o panorama do estado: de uma terra sem lei ele passou a ser um local onde se valorizam o meio ambiente e se ouvem as reivindicações dos povos da floresta.

Saímos de lá bem tarde e atulhados de informação, inclusive porque eles puseram à nossa disposição os arquivos do ISA. Abriram-se muitas perspectivas para estruturar a narrativa do roteiro.

A conversa seguinte seria com Marcos Egydio Martins.

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