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Relatório 5: Enchente enche

5 janeiro 2011 2.110 visualizações 2 comentários

Para quem não se lembra, eu e a tenente Velva estávamos fazendo uma bela refeição num lixão quando começou a chover.

Achamos aquilo lindo, pois não há chuva em Tralfamador. O núcleo do planeta é frio e ele se encarrega de irrigar o solo e o próprio ar quando há necessidade.
Depois de algum tempo, as ruas começaram a encher e viraram pequenos rios.
“Vou brincar na correnteza”, disse a tenente Velva.
“Se você vai, eu vou também”, respondi de pronto. Só que me esqueci de um
detalhe importante: não sei nadar muito bem.
Mas, antes de contar minha desgraça, contarei outra:
Algumas cidades da Terra cresceram com um planejamento tão desordenado que até uma criança brincando de SimCity faria coisa melhor. Os homens foram construindo prédios, avançando sobre as várzeas e provocando a impermeabilização do solo. Logo, quando chove numa dessas megalópoles, a água não tem para onde escorrer e acaba causando enchentes e pontos de alagamento.
“Estou me divertindo um bocado”, disse Velva dando algumas braçadas, ou no caso, tentaculadas, “mas vou acabar com os terráqueos na hora de escrever o relatório”.
Ela tinha razão para ser cruel. Como os humanos poderiam entrar para a COPULA (Confederação Planetária Unida de Lealdade Ambiental) se deixavam algo como aquilo acontecer?
“Veja que desgraça”, ela prosseguiu. “Veja esses carros quebrados, esse lixo boiando, aquelas pessoas subindo aos telhados das casas para se salvar.”
Depois ela me disse uns números assustadores: As chuvas de verão no estado de São Paulo, em 2010, deixaram 22.084 pessoas desalojadas e mataram 70. Na capital, 12 bairros ficaram em estado de calamidade e, no estado, 38 cidades ficaram em estado de
emergência.
Você pode perguntar: eles ficaram mais sensatos na hora de construir depois disso? A resposta é: não. Continuam erguendo prédios próximos a leitos fluviais e continuam impermeabilizando o solo. Eles ficam cegos quando se trata de ganhar
dinheiro rápido.
Bem, agora vou contar a minha desgraça.
Lembram que eu disse que não sabia nadar muito bem? Pois a verdade é que eu não nadava nada. Tanto que Velva logo percebeu que havia algo errado comigo.
“Algum problema, cabo Kubno?”
“Não”, eu respondi enquanto me debatia em meio a uma água barrenta. “Só estou praticando um nado diferente.”
Eu nunca poderia admitir uma fraqueza diante dela. No fundo, um tralfamadoriano não é muito diferente de um terráqueo. Ou seja, ambos são idiotas.
“Tem certeza de que está tudo bem?”
“Claro, glub, que, glub, tenho.”
Não é preciso ser um gênio para adivinhar o final dessa história: eu me afoguei.
Velva foi me resgatar lá no fundo do Tietê e, quando me trouxe de volta à margem, fez respiração ventosa-a-ventosa para me ressuscitar.
“Volte, Kubno, volte!”
Eu já tinha voltado à vida há um bom tempo, mas fiquei quieto para aproveitar um pouco mais. Só decidi acordar quando ela falou em voz alta: “Acho que ele só vai voltar com um choque elétrico no…”
“Velva, cof, cof. Velva, meu amor, você me salvou.”
“Apenas cumpri minha obrigação, cabo Kubno.”
“Eu tenho que recompensá-la de alguma forma”, disse eu fazendo biquinho com minha boca esquerda e passando as três línguas sobre os lábios da direita.
“Ótimo”, disse Velva, “vou mesmo precisar que você me dê uma ajuda.”
“Seu desejo é uma ordem…”
“Pois então amanhã vamos seguir o Santana.”
“Quem?”
“José Santana. É um terráqueo típico.”
“Você está apaixonada por ele?”, perguntei com medo de ouvir a resposta.
Sua resposta foi uma gargalhada. Uma gargalhada tão grande que pude ver seus
215 dentes.

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2 comentários »

  • sindia said:

    Bem, sua desgraça comparada com a das chuvas, é café com leite. Recebeu um beijo da velva e tudo mais. Agora, vcs têm tentáculos e 215 dentes e vários olhos… Nossa, assustador. Por que tantos dentes e ventosas e tenaculos. Vcs vieram do mar, é um planeta águatico? Que tipo de dentes consegue morder e mastigar geladeira e essas coisas que vcs encontraram no lixão? Vocês são sintéticos ou algo do tipo? Acho que vcs foram inventados pelo homem…

  • Murilo said:

    Uma crinça brincando de Simcity realmente faz coisa melhor.
    O mais deprimente é que a mídia não da essa informação aos TVguiados.Acham que é mãe natureza que não os ama.
    Nossa situação é realmente triste, e não acho que a ajuda virá a nós, do espaço como nessa estória.

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