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Relatório 4: Lixo é um luxo

3 janeiro 2011 1.746 visualizações 2 comentários

Chegamos ao lixão um pouco antes do pôr-do-sol. Curiosamente, na Terra o céu fica avermelhado nesse momento, e não listrado de verde e lilás como em Tralfamador. Mesmo assim, dali de onde estávamos a vista era encantadora.

“A uma noite perfeita”, brindei erguendo um cálice de chorume.

“Não tente bancar o esperto”, respondeu a tenente Velva sem erguer seu copo de bagaço. “Não é porque você me trouxe para um lugar romântico que vai acontecer alguma coisa.”

Deixem-me explicar: em Tralfamador, a coisa mais romântica que existe é você levar a namorada para jantar lixo. É que resíduos sólidos são um luxo para nós. Já para os terráqueos são apenas lixo. Eles preferem comer cadáveres. Vá entender…

Em defesa dos habitantes da Terra, há que se dizer que o estômago deles não é como o nosso, que pode absolver qualquer coisa. E, quando digo qualquer coisa, estou dizendo qualquer coisa mesmo: celulose, ferro, aço, concreto… Sim, concreto. Dói um pouco na hora da saída, mas quem resiste àquele sabor?

Outro fato que transforma nosso lixo em iguaria é que a reciclagem em Tralfamador chega quase a 100%. Assim temos que importar lixo de planetas como Qwert ou Asdfg, e os restaurantes cobram uma fortuna por um filé de garrafa pet ao molho de tampinhas de cerveja.

“É realmente uma pena que os terráqueos tenham um processo digestivo tão limitado”, comentou Velva enquanto engolia um pneu.

“Verdade”, completei enquanto sugava uma porta de geladeira. “Isso faz com que joguem muita coisa fora.”

Pelo que pudemos ver, todo ser humano tem um cesto de lixo em casa e eles depositam ali tudo que não aproveitam. Esses saquinhos são postos numa lixeira e os caminhões da prefeitura passam para recolhê-lo em algum momento.

Parece um sistema primitivo, mas em outras épocas era pior ainda: eles simplesmente atiravam seu lixo (incluindo mijo e fezes) pela porta fora, o que deixava as cidades com mau cheiro e cheias de ratos e baratas.

“Por favor, me passe aquela tela de computador. Faz séculos que não roo uma”, falou Velva.

“Parece interessante”, observei. “Mas agora acho que vou traçar aquele ventilador.”

Eu usava minhas três bocas de uma vez. Velva, as quatro. Estávamos comendo tanto que cheguei a pensar que íamos explodir.

“Lembre-me de fazer exercícios amanhã, Kubno. Estou comendo

mais que uma qwertiana.”

“Pode deixar”, respondi com a boca cheia de pregos.

O problema da Terra é sério. É preciso diminuir a produção de lixo e evoluir na questão do reaproveitamento.

Vejam um exemplo: cada brasileiro produz cerca de 0,8 kg num período de vinte e quatro horas. É muito. As prefeituras recolhem diariamente alguma coisa como 229 mil toneladas, e sabem o que eles fazem com a maior parte desse lixo? Nada. Ele é simplesmente depositado em lixões.

Sabem quanto desse lixo é reciclado? 4%. Uma piada. E sabem qual o percentual dos municípios que têm algum programa de reciclagem? Só 8%!

“Os humanos poderiam desenvolver processos como coprocessamento, compostagem e biogasificação”, anotou Velva em seu
relatório, “mas o retorno político dos investimentos é pequeno e eles ainda são seres terrivelmente obcecados com as compensações de curto prazo.”

Acho lindo quando Velva escreve coisas assim. Sexy mesmo. Aquilo me deixou meio empolgado, então encostei um de meus tentáculos em sua garra esquerda e perguntei com ar de galã:

“Velvinha, o que você acha de fazermos um exerciciozinho para facilitar a digestão?”

Ela entendeu a pergunta por trás de minha pergunta e disse:

“Nem que chova canivete!”

Por uma incrível coincidência, na mesma hora começou a chover. Não canivete, mas água. Muita água.

Contarei sobre a enchente no próximo relatório.

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2 comentários »

  • sindia said:

    É verdade que é estranho comer cadáver, mas é também respeitoso, embora a gente não faça mais isso com essa intenção. Antes, os primeiros que povoaram essa parte da terra, o Brasil, comiam seus familiares quando eles morriam, em sinal de respeito e também os inimigos vencidos em batalha, também em sinal de respeito e com o objetivo de incorporar a força do inimigo. Acho que a gente, seres humanos, come por desejo/curiosidade pelo outro.
    Nunca pensei que alguém pudesse desejar tanto uma tampinha de refri ou garrafa pet a ponto de come-la. Vcs são mesmo esquisitos, estou muito curiosa sobre vcs…

  • Delirium said:

    Sindia,

    Acho que quando se referiu a cadaveres, não eram necessariamente humanos, mas sim dos animais que criamos.
    Abç

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