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Relatório 3: O inchaço das cidades

20 dezembro 2010 2.383 visualizações Um comentário

Fui até o porta-luvas da Vork e peguei a Marreta. Ela parece uma marreta de verdade, mas, em vez de ferro, na sua ponta há um sofisticado sistema de dobra espaço-temporal. Eu gastaria horas para explicar todo o sistema aqui. Direi apenas que dei uma marretada na cabeça da tenente, depois outra na minha, e pronto: estávamos no passado.

Continuávamos em São Paulo, mas uns 150 anos atrás. À nossa volta havia uma cidadezinha simples, ainda com muita vegetação, florestas próximas e rios límpidos. A quantidade de aves era incalculável, mesmo para um tralfamadoriano. Alguns cidadãos passeavam por ali, mas, como estávamos invisíveis, eles não se incomodaram conosco.

“Respire esse ar. É magnífico!”, exclamou a divina Velva. “Que clima agradável! E que silêncio!”

Consultando seu computador de pulso, Velva descobriu que, se em 1850, a cidade tinha pouco mais de 20 mil pessoas, no ano 2000 este número tinha saltado para mais de 10 milhões de habitantes.

“E onde botaram toda essa gente?”, perguntei.

“Nas periferias. E lá eles têm menos ruas asfaltadas, meios de transporte, água tratada, sistema de esgotos, iluminação elétrica, postos de saúde ou escolas.”

“Tevê a cabo, nem pensar.”

Velva não se deu o trabalho de responder. Aliás ela resolveu parar de pensar na desgraça por alguns minutos e aproveitou o tempo que lhe restava para se banhar num regato de águas límpidas que, vim a descobrir depois, era uma curva do então sinuoso Tietê.

Ver uma fêmea tralfamadoriana nadando é algo que me deixa descontrolado. Para evitar problemas, tentei tampar meus olhos com meus tentáculos, mas um olho sempre escapava e dava uma espiada na tenente. Para minha sorte, o efeito da Marreta não dura muito tempo.

“Acho que o efeito do recuador temporal está acabando, gatinha.”

“Que você disse?”

“Que é hora de voltar, tenente.”

E assim retornamos para a quarta maior região metropolitana do mundo, com seus vinte milhões de habitantes. Estou falando da Grande São Paulo, é claro, que engloba as cidades coladas a São Paulo.

Então decidimos sobrevoar um bairro chamado Alphaville, onde moravam os sujeitos endinheirados da cidade. Quase todos eram brancos. Eles viviam trancados em casas grandes e confortáveis, num lugar bem afastado do centro. Havia câmeras instaladas em toda parte e carros de segurança passavam para lá e para cá.

Dali passamos para o entorno desse lugar, que era chamado de Alphavella. Creio que este nome era uma piada, um trocadilho, pois favela é o lugar onde moram as pessoas pobres de uma típica cidade brasileira. Muitos ali eram negros ou pardos. Eles viviam em casas apertadas e precárias. Boa parte daquela gente trabalhava servindo aos bambambãs de Alphaville.

“Ou seja, ricos e pobres se afastam do centro. Não é à toa que o problema de transporte é tão grave nesta cidade, Kubno.”

Ia comentar qualquer coisa, mas um arroto se antecipou às minhas palavras.

“Rôôôuc!”

Arrotar enquanto outra pessoa fala, em Tralfamador, é como dizer a ela que seu discurso não passa de bobagem.

“Perdão tenente, esse arroto não foi uma crítica, apenas uma manifestação do meu estômago central avisando que preciso comer.”

“Como posso acreditar nisso?”

“Aceitando meu convite para jantar. Vamos ao lixão mais próximo?”

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Um comentário »

  • Murilo said:

    Os tralfamadorianos, pelo jeito, não são bons apreciadores de comida gostosa.
    O Alphaville fica perto da minha casa.Que pena que não passaram na minha casa, eu ia lhes mostrar o que é comida de verdade.

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