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Relatório 2: Trânsito

17 dezembro 2010 3.766 visualizações 2 comentários

Diário de bordo:

Data estelar: 1513.1.

Posição: Planeta Terra, mais especificamente na cidade de São Paulo, latitude -23° 32′ e 51”; longitude -46° 38′ 10”.

Nossa nave está numa clareira na Serra da Cantareira, com os sistemas de invisibilidade ligados, o que fez com que vários passarinhos dessem cabeçadas em nosso casco.

Aqui quem fala é Kubno, cabo Kubno. Estou envolvido numa importante missão de estudos sobre a Terra. Quer dizer, na verdade eu só dirijo a nave. Quem está no comando é a tenente Velva.

Falando em Velva, hoje cedo fui falar com ela: “Boneca, tive uma ideia.”

Ela deu um disparo com a pistola. Acertou a ponta de um dos meus tentáculos. Preciso controlar minha língua ou me desviar mais rápido.

Então ela disse: “Qual é a ideia, cabo?”

“Penso que deveríamos fazer um voo de reconhecimento, tenente, para entender melhor os habitantes desta cidade.”

“De acordo. Ligue os motores.”

Liguei os motores. A Vork levantou voo. Lá de cima, enquanto observávamos a cidade, ela começou a gravar um depoimento para nossos chefões.

“Os humanos são bastante parecidos uns com os outros. Andam em fila, deslizando, sempre devagar e fazendo sons estridentes. Alguns peidam tão constantemente que uma fumaça fica saindo pelo seu orifício traseiro. Usam roupas coloridas, mas têm preferência pelo preto e pelo prata. Parece que todos têm um ou mais vermes dentro de si. Daqui de cima não se pode distinguir os machos das fêmeas, mas…”

“Xuxu?”, eu a interrompi.

Se o olhar de Velva matasse, eu seria um monte de poeira cósmica agora. Mas calma, eu não sou louco: sabia que a pistola estava longe do seu alcance.

“Se tem uma coisa da qual eu entendo são meios de transporte. Não é à toa que eu sou piloto. E você está falando de automóveis, baby. Os humanos são aqueles vermezinhos que viajam dentro deles.”

Velva levou dois sustos: um por eu estar certo e outro por haver tantos veículos nas ruas.

Vou lhes explicar como funcionam as coisas em Tralfamador: lá os carros só voam em situações extremas. No geral, as ruas ficam livres para nós. Há esteiras, é claro, mas elas só são usadas pelos mais velhos e pelos atrasados. A maioria gosta mesmo é de dar uma boa caminhada.

Velva acessou um banco de dados terrestre e confirmou que o papai aqui estava certo.

Mas não foi tudo: ela também descobriu coisas que fizeram suas antenas piscarem.

Só a cidade de São Paulo tem 6 milhões de veículos. E, lá, um motorista perde, em média, duas horas e quarenta e três minutos por dia no trânsito.”

“Isso é ridículo, Kubno! Eles desperdiçam mais de um mês por ano sentados ao volante.”

Era mais do que ridículo, era trágico. Aquele amontoado de carros causava problemas para a economia, fazendo as pessoas se atrasarem para compromissos. Mas, lembre-se, a economia da Terra podia se danar desde que o ar estivesse respirável. Era isso que tínhamos vindo constatar.

“Você sabia, Kubno, que aquela lataria toda lá embaixo não é movida como a nossa nave?”

“Eles não usam energia mental?”

“Não, os carros daqueles infelizes se movem empurrados pela queima de um combustível fóssil chamado petróleo.”

“Cucalapopoca!”

Cucalapopoca é uma interjeição trafalmadoriana. Quer dizer alguma coisa como: “está brincando!”

“E esse tal de petróleo, Kubno, enche a atmosfera terrestre de monóxido de carbono e outras substâncias.”

Ao dizer isso o coração de Velva parou de bater. Sorte que os outros quinze continuavam funcionando.

A pobrezinha ficou tão desnorteada com tudo aquilo que pensou em voltar para casa. Tive que recorrer ao meu charme para fazê-la mudar de ideia.

“Sabe o que devíamos fazer? Usar a Marreta.”

“Você quer quebrar os carros?”

“Não. Marreta é a quina de Rápido REcuo ao Tempo Anterior.”

“Ah, claro…”

“Vamos ver como era esta cidade uns anos atrás, minha querida…”

Ela sacou a pistola.

“… tenente”, emendei rápido.

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2 comentários »

  • sindia said:

    Caraca! 16 corações!, Kubno, nem o transito de São Paulo impediria Velva de te amar. Aqui na terra a gente inventou que se ama com o coração, acho que porque quando a gente está apaixonado, ele acelera, bate forte mesmo, parece que vai escapulir pela boca, que é o orifício pelo qual a gente se alimenta de comida. Há outros pelos quais nos alimentamos de outras coisas, olhos, de beleza, ouvido de sons/musica, nariz, de aromas, vou parar por aqui, senão a sua pesquisa sobre cópula pode perder a graça do descorimento.

  • Cahimmign said:

    imparato molto

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