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A chegada

15 dezembro 2010 5.689 visualizações 4 comentários

Kubno e Velva

O espaço, a fronteira final. Estas são as viagens da nave estelar Vork em sua missão de cinco meses ao planeta Terra para exploração de novos mundos, para pesquisar novas vidas, novas civilizações, audaciosamente indo onde nenhum tralfamadoriano jamais esteve.

Meu nome é Kubno, cabo Kubno.

Vocês não me conhecem, mas sou o piloto da nave estelar Vork. Claro, eu preferia estar pilotando uma Tuf-300, com aqueles sensores coloridos, ou uma Wukl, que percorre cem mil anos-luz em um microssegundo, mas pago o preço por ter destruído a garagem do general Gedho.

Não estou viajando sozinho. Levo comigo uma especialista em questões ambientais: a tenente Velva. Ela tem uma conversa agradável. Quer dizer, tinha. Desde que passamos por Ganimedes, a última lua de Júpiter, temos trocado poucas palavras. Naquela altura eu comentei:

“Adoro seus olhos azuis.”

Ao que ela respondeu:

“Só os azuis? Você não diz nada sobre os verdes, os amarelos, os cor de rosa, os roxos e os listrados?”

Não tive tempo de rebater. Velva se desmaterializou de raiva. Não reassumiu a matéria nem mesmo quando raspei os propulsores num cometa repleto de poeira e fragmentos rochosos.

Mas não se preocupem, ela voltará a falar comigo.

Ela não tem saída.

O objetivo de nossa missão é fazer um relatório sobre a Terra. Eu sei, você nunca ouviu falar. É o terceiro planeta se iniciarmos a contagem a partir de uma estrela de tamanho desprezível da Via Láctea chamada Sol.

Não ajudou, não é? Dê uma busca no Google.

As autoridades galácticas querem saber se a Terra está em condições de ser admitida na Confederação Planetária Unida de Lealdade Ambiental, a Copula. Os terráqueos enviaram uma ficha de adesão para lá há alguns meses, e depois de mais alguns meses em que essa ficha ficou passeando por sessões da burocracia, resolveram enviar a missão.

“Que foi aquilo que você destruiu?”, perguntou Velva ao se materializar novamente.

“Parecia ser um satélite, querida.”

“Não me chame de querida.”

“Desculpe.”

Agora estamos entrando na atmosfera da Terra. Nunca tinha passado por um lugar tão poluído por dióxido de carbono, metano, óxido nitroso e perfluorcarbonetos. Deve estar bem quente lá embaixo.

Meus planos eram ficar no fundo de algum oceano e fazer as pesquisas para a Copula com toda calma, mas Velva é simplesmente obcecada por trabalho. Ela disse que a ideia de ficar no fundo do oceano era idiota e ordenou que escolhêssemos uma cidade para pousar.

“Temos que manter contato com humanos, Kubno. Eles é que causaram toda essa sujeira.”

“Sim, amorzinho.”

“Não me chame de amorzinho.”

“Desculpe.”

Acionei o sistema randômico de escolhas e o aparelho indicou uma cidade que tem um nome engraçado: São Paulo. Ela tem onze milhões de terráqueos se aglomerando em 1.522.986 quilômetros quadrados. Nem as formigas de Tralfamador vivem tão apertadas.

Aliás, se querem minha opinião particular, é um dos lugares mais horrorosos que já visitei. E olhem que já passei férias em Andrômeda.

Pousamos num lugar chamado Serra da Cantareira. Saindo da nave, fiquei cego por um instante e tossi por dez mil íhns, o que, em tempo terráqueo, dá mais ou menos uns vinte minutos.

Assim que me recuperei, disse: “Parece que teremos um bom campo de estudos por aqui, meu doce.”

“Se você me chamar de qualquer coisa que não seja tenente Velva mais uma vez vou fuzilá-lo com minha pistola de raios flamejantes.”

“Sim, senhora.”

Logo começaremos nossas investigações. Devo admitir que não estou animado.

Nem com o planeta nem com Velva.

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4 comentários »

  • Roberto - Terraquio Insano said:

    Prezado Kubno,

    Um conselho se me permite: (nós terraqueos adoramos nos meter onde não somos chamados…..),

    Em Roma proceda como os Romanos.

    Ou seja, vai fundo que a Velva tem um coração de aqua……

  • Luiz Cipriano said:

    Por enquanto, sensacional. Quando será publicada a continuação desta estória? Estou ansioso para conhecer mais desta estranha cidade.
    Nota:
    Acho que faltou um “onde” entre “indo” e “nenhum”, não acham?
    “audaciosamente indo nenhum tralfamadoriano jamais esteve.”
    Abraços, Cipriano.

  • sindia said:

    Kubno, São Paulo não é horrososa, vc vai ver. Em cada rua tu vai encontrar seres fantásticos, com um modo de olhar o mundo que vai te susrpeender. São Paulo é um mar de concreto onde pessoas dançam nas praças e tb choram, mas insistem em dançar. Porque só assim a gente esgarça a idéia de realidade e sobrepõe outras e outras a essa aparente aridez real.
    Quanto a Velva, acho que sua passagem pela terra vai te ensinar algumas coisas. Por exemplo, logo tu vai aprender que fazer amozinho é bem melhor do que dizer amorzinho.
    Beijos terraqueos,
    Sindia.

  • Murilo said:

    Ótima ideia retratar o planeta Terra pelo ponto de vista dos tralfamadorianos.
    Vou acompanhar a saga desses amigos de outro mundo até o fim, talvez a conclusão deles me ajude a entender a humanidade.
    Parabéns a todos e até mais!

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